26 de setembro de 2009

Um pastor, um pai, um canalha (última parte)

O automóvel era outro, do ano, e as atitudes do pastor Tobias eram outras em relação a sua companheira de muitos anos. Não mais a bulinava. Não enfiava mais aquela mão grotesca naquela genitália, agora envelhecida para ele, já tão machucada e cicatrizada, tantas vezes, por aquela mesma mão, aquele mesmo pênis, aquele mesmo homem. Para a devota Marly, era um descanso. Finalmente a velhice, que nem era assim tão aparente, estava proporcionando dias melhores para ela. Não se sentia desprezada, nem mesmo triste; sabia fechar-se em sua dor e , agora, em seu alívio, como um casulo. O velho, diferentemente, estava cada dia mais pervertido. Não ficava em casa por muito tempo. Insistia na mesma conversa dos cultos distantes, dos convites repentinos para pregar, dos discipulados nas casas, das viagens a congressos pentecostais. Não tinha o hábito de renovar as desculpas; não era burrice, era canalhice mesmo; queria que soubéssemos, tirássemos nossas conclusões, eu e a devotíssima Marly, que ainda estávamos ali, dividindo nossas vidas com um monte de lixo. Estava lendo Salinger, com seus campos de centeio; Holden Caufield. Nunca pensei que iria me identificar tanto assim com um personagem de livro. Jesus Cristo não conseguira esta façanha. Eu tinha 18 anos agora, Holden tem 16, a idade não importava, aquilo tudo era eu. Lia-o sempre. Comprei escondido do meu "Bernardo Gui "particular, e, enquanto ele tentava comer a devota Marly, mesmo feia e sem graça,testando nela um novo gel lubrificante, lançamento no mercado, eu lia ,vorazmente. Tornei-me irascível, como Holden.
Meu quarto ficava dividido apenas pela parede do quarto de casal e era fácil ouvir as conversas. Uma discussão prosseguia já a algum tempo; o pastor Tobias, nitidamente embriagado, resolvera pregar para minha mãe. "Deus revelou-me em sonho" disse, "que você, Marly, não é a mulher certa pra mim. Sua indiferença nos trabalhos de casa, sua insubmissão nas posições na cama, essa sua cara triste, como se não fosse uma vitoriosa em Cristo, esse filho que você me deu, estranho, sem amigos, sem namoradas... essa coisa dele não ter namoradas... você acoberta este menino... ele é gay, e você não quer me contar... que ele fosse ateu, porra, mas gay não! Oh, meu Deus... perdoe-me..."
Eu estava ali, ouvindo tudo, e o ódio, aquilo que havia feito meu sangue não coagular diante daquele estrume, daquele bastardo, começou a se manifestar de modo físico, me dando forças; o coração pulsando mais rápido, as pupilas dilatando, os punhos se fechando e a dor... minha mãe... de repente, um tiro. Um grito já sem forças... ele havia errado o alvo... estava cambaleante demais devido à bebida... saí correndo e arrombei a porta; outro tiro... outro erro. A cavalaria havia chegado para Marly, não mais devota, não tinha tempo para aquilo agora; era o real, havia visto a dureza da vida, da sua vida, encravada no rosto daquele homem sujo, bestial, com aquela arma na mão... ela saiu do quarto e tentou chamar a polícia... eu pulei sobre aquele corpo enrugado e podre; era a primeira vz que tocava com vontade naquele corpo, fedido, o álcool havia tomado conta daquilo... consegui derrubá-lo, a arma caiu do outro lado... os sóbrios têm a vantagem da rigidez dos movimentos... o ódio já carcomia meu juízo, não pensei duas vezes... só restavam 3 munições... todas tinham morada certa... corri depois disto, minha mãe a gritar desesperada... saí pelas ruas, até encontrar um lugar tranquilo, longe do tumulto. Alguns dias depois fui pego. Não me arrependo de nada, disse a um jornalista local, louco por desgraças. Estou aqui na penitenciária, já condenado pelo juri, irmãos na fé e na dor do pastor Tobias, morto pelo filho, que ele chamou de gay... Não me arrependo... mãe... eu também não te condeno... vai em paz...

1 Comentários:

VITTOR PASSOS disse...

muito bom, velho. muito mesmo.li tudo num folego só, de uma só vez. muito bom. sinto que se está nascendo uma nova forma de fazer literatura. sinto que a "democarcia", a "liberdade de expressão", nos permite tocar em muitas feridas. muito bom...