21 de março de 2010

Tratado sobre a Insolência - Final

O pequeno cubículo onde Victor morava era a viela mais suja que já havia visto em Paris. Notório reduto de prostitutos e ladrões, o ambiente denotava que ali ninguém era bem-vindo. Consegui o endereço naquela taverna em que estávamos, mas advertiram-me que seria complicado aproximar-me do local. A imundície era o mais impressionante de tudo; seres vivos, que se revezavam entre seres humanos, ratos, gatos e cachorros lutavam pelo resto, pela migalha apodrecida de algum alimento. Roupas penduradas em varais ao longo das janelas afirmavam que havia uma tentativa de higiene, mesmo assim o aspecto era detestável. Victor morava no último buraco, por isso tive que, antes de chegar ao destino, presenciar tais fatos, que na verdade me causaram mais ojeriza do que misericórdia. A porta estava entreaberta, e logo estava dentro da casa do homem que havia me proporcionado a primeira experiência de vida válida desde que saí do ventre de minha tola mãe.
O interior da residência não poderia ser diferente do exterior. Nada havia, apenas alguns jornais espalhados, roupas penduradas na única cadeira e um forte cheiro de bebida. Adentrando mais um pouco, vi dois corpos estendidos no chão de um pequeno quarto úmido, e, num movimento voyer, aguardei para proceder qualquer atitude. Victor estava de bruços, enlaçado a um outro corpo, masculino, mas extremamente jovem; ambos estavam dominados por um sono profundo, e resolvi aguardar no cômodo ao lado, o que parecia ser, na melhor das hipóteses, a sala de estar. Não se passou muito tempo e logo os dois estavam de pé, e Victor foi o primeiro a me ver.
- Paul... Eduard... estou surpreso...
- Victor... percebo que o atrapalhamos...
- Não, de forma alguma, Valèry estava saindo. (balbuciaram alguma coisa em meio a um abraço e o jovem retirou-se). Já tomaram o desdejum?
- Há algum tempo. O dia já está bastante avançado.
- Nunca me acostumo com os horários solares, a lua me parece ser muito mais discreta. Convido-os então para acompanhar-me a algum estábulo qualquer para que eu possa me alimentar de feno.
Fomos a um pequeno restaurante,a duas esquinas do pardieiro de Victor. O lugar era bem mais agradável do que onde estávamos; logo nos acomodamos e Victor pediu uma xícara de café e alguns polvilhos, porque isso era tudo o que conseguia comprar com as moedas que trazia consigo.
- Como disse, Paul, estou surpreso com a sua visita. Há algum tempo não nos víamos, desde aquele nosso último encontro. Em que lhe posso ser útil?
- Victor, o procurei para que me esclarecesse o que eu senti naquela noite. As substâncias que me apresentou fizeram-me um bem infinito, suave, como nunca pude absorver em qualquer lugar, em qualquer tempo.Ajuda-me a compreender tais momentos.
- Paul... o que presenciastes nada mais é do que a tua própria essência, o teu próprio mundo interior. Cada experiência é única, não há qualquer conexão entre as diversas formas de sentir o que está encravado em nós mesmos. Minha vivência não é a sua, e a do mundo inteiro não é a nossa. As substâncias são só pequenos ingredientes, não são a própria visão em si. Tudo que sentistes veio de ti, de teu âmago, e quando quiseres, podes ter as mesmas sensações novamente.
- Eu sempre vivi em busca da vida, em plenitude. Deus resolveu brincar comigo e me pôs em corpo inválido e degradante, mas, como velho e senil, esqueceu de meu cérebro, minha alma. Este pequeno órgão, naquele dia, foi inundado por vida, imagens fabulosas, tempos distantes; pude viajar aos mais remotos pedaços do universo, e sei que não posso me mover com tanta graça numa cadeira com rodas. A vida é isso? Este frenesi?
- Certamente, mas ainda te faltam os movimentos corporais, que possues, senão como foste capaz de dar tanto prazer a nossa pequena amiga? O aprimoramento dos músculos, a carne que não se move por pura preguiça, eis o teu mal. Teus nervos estão enguiçados pela forma como nasceste, mas isso não te impede do prazer, então, que viva com o que tens! Quanto a isto, podes contar com a ajuda dos amigos que sempre estarão perto de ti.
Victor estava realmente disposto a me enclinar para um entendimento fantástico. Viver, no sentido estito do termo, era simplesmente utilizar-se do que temos, daquilo do qual fomos munidos, e o resto se arranjaria plenamente. Algum auxílio poderia ser utilizado, mas nunca isto poderia substituir as percepções que temos em nós mesmos, em nosso interior. Isso se parecia muito com o discurso do padre naquela manhã, quando me dizia que a vida deveria ser constantemente experimentada. Pensei bastante naquele homem e sua batina surrada, observando-me com um olhar cálido e penetrante. Não, Victor não poderia conhecê-lo.
- Sim, conheço-o muito bem, Paul. o padre Jean Pierre sempre foi um confidente adorável. Encontrei-o pela primeira vez em um sarau nas proximidades do Sena, onde um rico comerciante havia recrutado mendigos nas praças de Paris para serem servidos em um grandioso banquete. Sabíamos, os mendigos, que aquilo era mais uma demonstração hipócrita de apreço aos pobres, mas lá chegando, esta figura singular, com sua mesma batina surrada, conversava com alguns homens ilustres, e quando chegamos, ele nos olhou com bastante simpatia. Aproximei-me, e ele, num gesto doce, afagou meus cabelos e perguntou-me onde eu vivia. Disse-lhe, e ele convidou-me para passar alguns dias em sua casa, nos arredores de Bagnolet. Disse que havia se encantado com minha aparência, mesmo suja e maltrapilha. Sua casa era discreta, e ali passamos momentos agradáveis de leitura, comida, bebida, alucinógenos e sexo. As árvores que rodeavam a propriedade davam ao ambiente um ar bucólico, e passeávamos diariamente, á tardinha, conversando sobre música, filosofia, arte, mulheres e homens. Sua vivacidade, apesar de já possuir uma idade que o desqualificaria para tais cotidianos, era fantástica. Era vívido, sagaz, extremamente irônico e inteligente. Fomos amantes, amigos e confidentes; ele ausentou-se por alguns dias em uma paróquia distante, e fiquei em seu lar, cuidando de tudo. Uma manhã, disse que não queria me ver mais, que eu estava pronto, nunca mais precisaria mendigar o pão da vida, a água sagrada, pois já sabia que viver, em sua mais completa intensidade, era a salvação do homem. Fui embora e vim para as ruas, mas renovado, sentindo todo o ensinamento daquele grande sacerdote, não de Cristo, mas do Homem, do que pode alcançar o homem, das suas possibilidades. Onde você o conheceu, Paul?
Fique atônito por um tempo. Victor, com seu relato acerca daquele velho padre, me despertou do grande sono. Aquele homem era a chave, o segredo, desde o início; minha revolta não poderia ter me feito tanto mal, e cego pela fúria não pude perceber o quanto a verdade foi jogada em minha face, de forma bem maneira. Aquele padre, disfarçado certamente de operário de Deus para sobreviver e possuir o tempo necessário ás sua incursões intelectuais e amorosas, tinha encravado em si o motivo, o grande motivo da existência. Já havia passado muito tempo desde que o vi naquela igreja, e convidei Victor para irmos até lá, numa pequena visita. Em pouco tempo, estávamos diante da porta que nos separava daquele homem.
Entramos. Pessoas ainda saíam da igreja, pois a missa havia terminado há pouco. Alguns sacristãos estavam a limpar o altar recém utilizado na matança do Agnus Dei, e Victor, muito gentil, perguntou a um dos rapazes:
- Onde podemos encontrar o padre Jean Pierre?
- Senhores, creio que não são daqui, apenas nos visitam, o que é uma honra. O padre Jean Pierre encontra-se enfermo em sua residência paroquial, atrás da igreja. Já providenciamos que a extrema unção fosse ministrada, inclusive. Se quiserem, posso acompanhá-los até o quarto, as visitas estão proibidas, mas vejo que são de longe, então posso fazer esta exceção.
Seguimos friamente para a casa, onde o corpo daquele homem jazia em uma cama simples, iluminado pela luz externa que vinha através de uma janela ampla disposta acima da cabeçeira do leito. Um quadro de Jesus Cristo o velava apenas. Parecia confortável, mas um certo ar de incômodo era visto em sua face enrugada; a porta foi aberta para que pudéssemos entrar e ele estava imóvel, apenas olhando para frente. Ficamos dispostos de forma a não incomodá-lo, e víamos sua respiração arquejada, sintoma de alguma infecção respiratória. Ficamos lá pouco tempo, e resolvemos sair e beber alguma coisa. Victor estava reflexivo, como se tivesse acabado de perder um pai; eu, um pouco frustrado, pensei na morte como uma vilã. A contribuição daquele homem foi a maior que qualquer outra pessoa poderia ter dispensado a mim, e aquela forma de se despedir de um libertador era lânguida demais, estúpida demais. Pouco tempo depois, acompanhamos o seu enterro no cemiterio local, cheio de pompas eclesiásticas, e na volta resolvi ficar um pouco mais diante lápide. Victor também acompanhou-me, e garoava um pouco. Nós dois não iríamos mais nos separar, e ali, naquela lápide onde se encontravam as informações do morto para a posteridade, lembrei-me da passagem bíblica, quando o Cristo, diante de sua mãe e João, diz: "filho, esta é tua mãe; mãe, este é teu filho".


16 de fevereiro de 2010

Tratado sobre a Insolência - Parte IV

Verdade seja dita: o velho padre parecia muito mais um velho conselheiro de uma humanidade longuínqua do que um sacerdote católico afeito à restrições do cotidiano. Um gole de uma cerveja me fez pensar naquilo que havia me falado sobre viver sem limites, opondo-se às cobranças e aos lamentos que eu impunha procurando culpados pela minha desgraçada condição. Alguns amigos de Eduard sentaram-se conosco enquanto refletia, e um deles me chamou a atenção. Um rapaz muito franzino, de cabelos à altura do pescoço, num tom misto entre o negro e o louro, mãos muito magras e um rosto bem vivo, falava entusiasmado sobre um artigo que havia publicado num pequeno jornal anarquista de tiragem medíocre na cidade. Todos riam efusivamente, certamente por mais um fracasso em colocar na mente dos famintos de Paris a palavra de um socialismo já caduco; mas aquela vivacidade, aquele olhar repleto de juventude, que é necessária a qualquer empreendimento de longo prazo como aquele, fascinou-me de imediato. Victor Lambert era o seu nome. Fomos apresentados e à primeira vista parecia que nos conhecíamos há muito; não sentiu qualquer dificuldade em entender o que minha língua trôpega dizia, e o seu assunto predileto eram as estrelas no céu e a anarquia na terra. Era impossível não se encantar com aquele ser celestial. Uma pequena garota o acompanhava, e chegou-se a nós disposta a conversar.
Fomos todos embora, todo o grupo, para um quarto logo de esquina a taverna, para passarmos a noite. tudo estava á mão naquele momento: boas garrafas de vinho, cigarrilhas, haxixe e sexo. Meu titio logo tratou de abandonar-me pelos prazeres disponíveis ali, pois uma bela jovem o atanazava como o demônio; duas moças belíssimas trataram também de sumir às nossas vistas, como relâmpagos; ficamos eu, Victor e a garota. Ele perguntou-me se havia algum dia experimentado o haxixe, disse que não, e ele delicadamente me instruiu, transportando a primeira porção do vapor alucinógeno de sua boca direto para a minha. Depois, segurou o cachimbo para que eu mesmo pudesse tragar a fumaça. A garotinha já estava entregue aos domínios daquela substância, e eu já começava a ceder; a primeira sensação guardei para ser relatada: a sensação de poder, juntamente com o aumento da frequência cardíaca. Tudo parece estar mais impregnado de sentido, ao mesmo tempo que nada se encaixa; tinha em minha frente visões paradisíacas, sempre aumentadas ao extremo por percepções nunca vistas na humanidade. Victor, enquanto isso, dizia-me a origem do haxixe, sua proveniência, e como algumas religiões do oriente entendem esta droga. Disse que na Índia, esta planta era sagrada, pois provinha do deus Shiva, que, num banquete preparado por sua esposa, Parvati, babou diante de tantas delícias postas para ele, nascendo assim a planta milagrosamente. Sensual e fascinante! Como os hindus, povo muito mais antigo do que nós, tinham uma sensibilidade sem limites! Sua influência em nosso cérebro seria a misericórdia do deus para conosco, e se isso for verdade, começo a querer mais esta dádiva. Os efeitos físicos são um tanto incômodos, mas os espirituais são absurdos... a garotinha que estava ali, quieta e sã, de repente retirou suas roupas de baixo e desabotoou a camisa que vestia, revelando dois seios magistrais. Aproximou-se de Victor e lhe pediu, em segredo, algo que confirmei em seguida; ele perguntou-me se eu gostaria de, naquele estado de graça, penetrar a nossa amiga. Consenti de imediato, e ela, observando minhas limitações na cadeira, juntamente com Victor deitou-me em um velho sofá, bastante espaçoso. Não poderia ser tão versátil nos jogos sexuais, então ela dominou todo o teatro, num movimento correto onde a fêmea possui mais poder do que o macho, contorcendo-o, absorvendo-o, liderando a grande marcha do prazer.
Suas pernas eram macias e quentes, seu sexo era igualmente sublime, senti-lo era, naquela condição de dinamismo sensorial, algo maravilhoso, digno de qualquer deus sacrílego inventado. Seus movimentos eram sensuais e deliciosos, e o nosso amigo estava diante de nós, sendo o grande espectador do momento. Depois os dois deliciaram-se diante de mim, e os risos eram infindáveis; aquela sensação era estranha para mim, pois estava sob efeito do narcótico, mas percebi que aquele estado era o real estado do homem, apenas debilitado pelas leis imorais do zelo aos patriarcas e juízes atuais. O homem sempre buscou uma forma de manter-se em conformidade com esta vida sensorial, esta percepção onde as formas, as cores, os sons, tudo deriva do mais puro claustro, da mais distante caverna do subconsciente. estávamos perdendo tudo aquilo para a regulação, para a norma, para os modernos valores claustrofóbicos e sufocantes, mas diante de uma pequena sala, com o modelo apropriado de ingestão de qualquer substância dilatadora, todo o antigo modo de sentimento surgia para nós como um grande arquétipo sagrado; os grandes homens eram os de sensibilidade apurada, visão de águia, de pulsar frenético, constantemente se desvencilhando das amarras, da própria vida consumindo todo o oxigênio da liberdade. Ah, formas antigas! Todo o mundo antigo se passou em segundos, até os dias de hoje, em minha pobre mente despreparada!
Entendi a função dos deuses, suas anatomias, seus significados; eles existem! Suas formas se identificam conosco porque, numa mente de percepção aguçada, a realidad enão se mostra opaca, em preto e branco, como a vemos cotidianamente; os sacerdotes eram pessoas do povo, como os xamãs americanos, mas com a sabedoria alquímica do misturar de ervas, do conhecimento da Natureza em prol da completude da mente; eles viam o real, estas belíssimas sensações que agora presencio, que agora recebo, e dali os deuses foram criados. Toda a Natureza clamou por ser explicada no momento em que o primeiro homem se fundiu com ela, absorvendo-a em vapor, em líquido e em outras formas. Entendo agora as grandes construções, os grandes palácios, tudo o que foi dedicado ao culto, à honra dos deuses; No Egito, os faraós, lideres incontestes de uma grande nação, eram os principais ícones das percepções adulteradas; os sátrapas, os reis mongóis, os grandes impérios sul-americanos, todos estes possuíam aquilo que nós hoje não compreendemos com nossa límpida razão cristã, que proíbe o consumo de alucinógenos. Não pude conter minha felicidade, e também compreendo o porque de tanto riso, tanta euforia; o imaginário torna-se tão plausível, tão presente, que toda atristeza mundana se evapora num instante, dando lugar ao que realmente temos em nós.
Aquilo levou toda a noite, e logo pela manhã, o sol surgiu novamente nas janelas avisando que já era a hora do sacrifício diário da normalidade. Ninguém queria tal acontecimento, eu mesmo estava ainda em processo de despedida de mim mesmo, mas tudo acabou. Contei a eduard o que eu havia sentido, e ele riu bastante, dizendo que a mocinha com quem estava era virgem ainda, e tudo foi muito hilário. Precisava entender o que houve, e sabia quem recorrer.

13 de fevereiro de 2010

Tratado sobre a Insolência - Parte III

Quando enfim a missa terminou, pedi a Eduard que me carregasse até o padre. É lógico que as pessoas continuavam a olhar, a mexericar uns com os outros sobre mim, nada que um olhar meu, contra-atacando com o mesmo desprezo e nojo, não pudesse resolver. O comum fica envergonhado quando é encarado, surpreendido com reprovação pelo alvo de suas conjecturas. Era particularmente divertido passar em revista àqueles imbecis, tão aleijados quanto eu, que ali estavam tão somente para buscar conforto, ajuda do além, pão para a alma, e nunca encontravam tais respostas,vindo sempre e mais uma vez indo embora, sem alívio. Eu, por outro lado, não queria redenção nem cuidados de um pai invisível. Estava ali para pedir explicações, uma vez que a ciência nada podia fazer por mim. Nossa tecnologia é atrasada e não benecifia quem vive em estado análogo ao meu; não representamos economicamente nada para a sociedade, nada somos senão estorvo, uma massa de gente contorcida, vil, mantida a distância e sem assistência. A ciência só favorece a quem contribui, ou a algo que seja viavel em termos lucrativos. Vi naquele padreco um meio de contestar esta ignomínia que perdura há séculos, com seus belos templos e suas belas homilias; talvez ele me ajude a responder tais ponderações.
- Senhor? Posso falar-lhe um instante?
- Sim, filho. (eu odeio estas assimilações de parentesco forçado)
- Preciso de algumas explicações... creio que o senhor é o mais indicado para me fornecer o que procuro.
- Em que posso ser útil?
- Diga-me, padre, por que deus é tão injusto?
- O que você está dizendo, filho? Deus não é injusto de forma alguma!
- Eu entendo que o senhor é um ser amargurado. Obviamente não poderia jamais falar em público o que vem ao seu coração todos os dias. Estamos no mesmo patamar, reverendo.
- O que você quer dizer com isso?
- Como sou impaciente com o cinismo! Somos iguais. Pelo menos eu tenho a coragem de inquirir um representante legal da cúria romana, dita instituída por Deus para salvaguardar o homem. Não percebe, padre? O que somos para este Deus semítico, estrangeiro? Deixamos nossos cultos pagãos, cheios de liberdade e misticismo sincero para abraçar sem mesmo cogitar nada um ser distante, carrancudo, misógeno e perverso. Tudo é vontade deste Deus. A guerra que nos assola é vontade de Deus que um rei mais forte se apodere de um menos capaz, que não rezou o bastante e que não beija as mãos dos arcebispos locais. A riqueza de algumas nações europeias é vontade de Deus, que acha que as civilizações que destruímos com nossa arrogância deveriam se subjulgar a nossas botas, nossas espadas e armas de fogo. Eu, padre, meu corpo, este mesmo que o senhor insiste em não olhar fixamente, em não analisar sem se perguntar, com aquela piedade sarcástica - "Deus, por que permitiste que este jovem sofresse com este corpo disforme, fétido?" - o que sou diante Dele? Sua vontade? Sua permissão? Nem sequer fui consultado no limbo das almas infelizes, destinadas a padecer do escárnio dos homens, se queria estas limitações, esta forma abortiva. Fiz questão de vir em minha primeira excurção à França procurar o seu Deus, padre, e ouvir o que ele tem a dizer.
- As palavras que acabei de ouvir são cruéis, meu filho, muito cruéis. Não vejo a Deus como sendo responsável pelas mazelas do mundo. Tudo acontece porque o homem quer assim, afinal, o mundo foi dado a ele no início. O homem domina tudo, cria aquilo que necessita para viver melhor, possibilidades surgem quando ele quer, e Deus é apenas um elemento passivo, não interfere em nada. Ele não é este monstro injusto e tirano, apenas não interfere. Não é culpado, inclusive, da sua condição.
- Diga-me uma coisa, padre. Se o senhor estivesse em meu lugar, o que pensaria sobre Deus?
- Não posso responder a tal pergunta. Cada indivíduo reflete diferentemente sobre sua condição. Dependeria muito do lugar de onde vim, da família a qual fui criado, uma série de fatores.
- Direi ao senhor o que penso sobre Deus. Um servo nosso, que nos serve de pretexto para fazermos o bem e abominar-mos o que somos realmente: bestas. Esforço-me para falar ao senhor estas palavras, e vejo que me entende bem. Isto é obra de Deus? Não! Isto é fruto do meu esforço, de minha vontade em comunicar-me, não se configura um milagre ou qualquer coisa que o valha. Insisto em reverter a condição que ele permitiu que acontecesse no dia do meu nascimento. Sou sobrevivente pela maldade humana de expôr deformidades, pois seria grato aos meus inúteis pais se eles me atirassem ao lago gelado que passa um pouco adiante de nossa casa, a qualquer tempo. Não revidaria nenhuma braçada de salvação, não teria como, e tudo estaria acabado. Foi permitido a mim a visão, que trai ao Criador toda vez que se depara com Rimbaud ou Dostoievski, e um cérebro que insiste, digo, insiste em pensar todo tipo de heresia, apostasia e blasfêmia. Permitiu-me o Senhor estar aqui, em sua casa, para cobrar o que me é devido saber de um sacerdote a princípio idôneo, e que até agora só me faz enrolar. Não creio, santo homem, que Ele seja alguém passivo, apenas complacente; creio ser ele cruel, tirano, insano e maldizente com o homem. Não o eliminou em Sodoma e Gomorra, Nínive ou no deserto para caçoar de nós. Este é o nosso inferno, nosso castigo eterno, nenhum outro mais.
- Você não precisa de respostas, filho, precisa viver um pouco mais. Nunca vi tamanha revolta num ser tão jovem. Creio que os velhos, estes sim, podem reclamar a Deus por não lhe prolongarem a vida, que usam dissolutamente, mas um jovem que nem sabe o que é a vida? Receio que você ainda não conhece o que esta vida, que você chama de disforme e impraticável, pode oferecer. O tempo é implacável com os que não sabem aproveitá-lo, e você perde tempo comigo querendo saber por que Deus permite cada estrela no céu, cada alvorecer, cada vida microscópica, cada dor, cada ódio. Viva, rapaz! Não amole o Homem com suas perguntinhas.
- Viver é tão facil para o senhor! Talvez realmente minha resposta não esteja aqui, devo ter me enganado. Deus parece ocupado demais com o vinho da sacristia e com visitas oportunas para um diálogo mais sereno. Vamos, Eduard, tire-me daqui.
- Viva, rapaz, viva! Nosso caminho até a morte pode ser mais longo do que se pode imaginar, e nela virá a resposta que precisamos, ou o descanso que necessitamos. Perde teu tempo apenas com o que te faz sentir esta única vida que tens, mais nada.
- Cala-te, velho! Senta-te em minha cadeira, urine em si mesmo, lance teu excremento em tuas pernas sem poder reagir e verás o que é minha única vida! Madito seja!
- Entenderás depois, jovem depois...

Saí dali com ódio ainda mais corrosivo. Eduard me levou até a beira do Sena, e ali, naquele inverno ameno, vi o curso do rio que passava, sem se incomodar comigo. Era tão suave, seu caminho tão correto, determinado pelo homem; canalizado de forma agradável, aquele rio poderia se tornar belo, tranquilo. O padre pode estar certo. Deus está em seu castelo, sem ligar para nós, por que eu deveria ligar para ele, ou perguntar-lhe alguma coisa? Santo dos Santos, travarei diálogo contigo na morte, antes, preciso viver. Eduard estava com sede, por isso decidimos ir até um local mais adiante, reduto de prostitutas, cavalheiros sodomitas e literatos fracassados, para bebermos uma cerveja alemã. Viva Deutschland!

10 de janeiro de 2010

Tratado sobre a Insolência - Parte II

E assim pude enfim vislumbrar o mundo. Estava chovendo quando Eduard colocou-me no carro e pedi, angustiado, que fóssemos embora o mais rápido possível. Não olhei para trás. Não senti qualquer ardor de um início de saudade da casa paterna; para mim aquele lugar era maldito; ali eu fui gerado, na imundície de um sistema de hipocrisia e farsa, onde os homens são impolutos e as mulheres submissas, onde a família é o bem maior que se pode possuir, e a fome a miséria são disfarçados pela maquiagem torpe de um cargo público inútil. Realmente não olhei para trás, tudo o que eu visualizava naquele momento sutil era o futuro, ele que já estava como uma cortina belíssima a se desvendar, a mostrar sua face. Meus livros, minhas roupas surradas, tudo ficou, não quis mais nenhum resquício daquela vida infeliz.
Eduard estava empolgado com a ideia de me levar à Paris. Disse com uma ênfase contagiante que eu iria gostar do lugar onde morava. Rua do inválido. Hahahahaha! Belíssimo! O que mais poderia me acontecer de tão excitante? Estava infinitamente feliz pelo meu papaizinho ter tido a brilhante ideia, a única que teve em toda a vida, de me renegar, me abandonar a própria sorte num lugar gigantesco como Paris, com um tio pervertido, homossexual e beberrão. Qual favor ele me fez! Estou a caminho do desconhecido, mas vou como um guerreiro ao Vahalla, depois das lutas terrenas, o descanso dos heróis! Não tinha amigos, não tinha namoradas, não tinha nada a me apegar.
Minha locomoção era grave, pois minha paralisia tomava-me por inteiro; mãos, pés, articulações, braços, pernas, tudo corrompido pelo parto mal feito. Mau consigo falar com naturalidade, poucos são os que entendem o que sai de minha boca; torta, mal cheirosa. Meu belo tio adaptou algo como uam cadeira, duas rodas de bicicleta, pés que Deus não permitiu que os tivesse para caminhar pelo mundo, mas que um homem sujo em uma viela escura tratou de conseguir. Para que precisamos de Deus, se os homens são extremamente adaptáveis? Hahahahhaha! Eduard já conseguia entender o que eu balbuciava com dificuldade, e assim conseguámos manter algum diálogo quando a noite não estava boa para um passeio, ou a biblioteca estava fechada.
- E então, o que acha de Paris?
- Um espetáculo! Agora entendo porque os prussianos são tão invejosos e querem tomar a todo custo esta bela cidade! Aqui existe aquela sutileza que não é vista em parte alguma da Alemanha, até as mulheres são mais interessantes... diga-me, Eduard, trazes mulheres para tua toca?
- Raramente. As impressões femioninas são importantes para os efeminados. Na verdade, somos meros imitadores daquilo que a mulher é, e elas devem sempre estar em nosso séquito, senão na cama, no bar.
- E as igrejas? Pretendo ir a alguma missa...
- Hehehehe... o que pretendes fazer num templo cristão, garoto?
- Busco a face de Deus... ele me deve explicações... certamente, como dizem os papas e bispos, eu acharei o fanfarrão em algum lugar na França, a filha da Igreja. Leve-me assim que puderes.
- Tudo bem. Posso levar-te agora, se quiseres.
- Uma bela tarde de inverno... sim, mas preciso lavar-me... tens isso que chamo de corpo a teus cuidados, olhe bem o que farás com ele.
- És meu sobrinho, o que poderia te fazer de mal? Aproveito e me delicio de alguma forma...
- Levas-me á perdição, titio... és um crápula...
- Tuas funções vitais são excelentes, e teu membro ainda mais, e é isso o que se procura por aqui... bons membros rijos... e os dos germânicos são apreciadíssimos!
- Pensei que todo teutônico que aportasse em Paris ou em qualquer outro lugar fosse passivo... hehehehehehe!
- Alguns sim, meu adorado sobrinho, alguns sim. Vês este teu parente, que delira ao menor toque de um militar ou grumete de Hamburgo ou Leipzig... digo a todos que sou francês, pois alguns não comeriam outro germânico, têm lá seus pudores estranhos! Lavo-te com destreza?
- Minha mãe não poderia fazer melhores abluções orais... hehehehe... no demais, és medíocre.
- Sim, medíocre tratando-se das conveniências. Não há nada melhor do que a mediocridade das coisas comuns! Uma vida como a sua não deve ser legada á mediocridade, pois o simples fato de teus pulmões inflarem e teu coração bater, além da tua virilidade espantosa, já poderiam ser sinônimos de força e fé na vida. Tua preocupação em expor-se ao mundo é valorosa, e estou contigo, não temas!
- Obrigado, pobre cavaleiro! Agora vem e enxuga-me, está fazendo um frio dos diabos aqui... como o inferno de Dante...
- Vamos a uma pequena igreja aqui perto, quem sabe não encontres o velho deus por lá.
- Excelente! Tua invenção foi testada? Não cairei na rua?
- Por certo que não. è resistente e tua compleição é franzina. Lavei tua roupa hoje e creio que está a gosto. Vamos.
Saímos a procura desta capela, onde Eduard me levava. Nesta minha primeira incursão aos campos da liberdade, decidi ir de encontro a Deus. O pó, uma pequena parcela do nada, em busca do Criador, do Onipotente, e , principalemente, do Onisciente. Acostumar-se com um corpo doentio é tão difícil quanto esperar por uma resposta dos céus. Mas aí se encontra um exemplo de insolência, pois mesmos sabendo que nada virá do alto, nenhum murmúrio, nenhum recado, mesmo assim o desafio se lança diante dos que creem, dos que perdem o seu tempo em venerar o vácuo, o zero. Uma porta maciça nos separava do átrio da igreja, e entramos, altivos. Os olhos dos espectadores do grande circo, uma vez e mais uma tão afetado e entendiante, com o mesmo palhaço ostentando suas insígnias romanas, os olhos daqueles que ali estavam captaram minha pobre figura e não mais se distraíram. Fui para frente, bem próximo ao altar; cretamente o padreco nunca vira tão horrenda criatura, mas ali, diante da saliva que eu nunca pude controlar, a cair de minha boca, meu tio a enxuga-la, o sacerdote voltou a entoar seus ritos funestos, enquanto os fiés já não se preocupavam com seus pecados, em expia-los, e cometeram o pior dos pecados imagináveis: não dar atenção a Jeová. Tudo foi quebrado, uma vez que ninguém mais notava a cruz e sua dor, viam a dor real, um ser humano factual, e sua insolência em participar da vivência dos sãos... hahahahahahha!


6 de janeiro de 2010

Tratado sobre a Insolência - Parte I

É uma força que me move, alavanca-me quando penso em ser apenas um qualquer. Um corpo saudável e jovem, certamente, auxilia nesta competência, mas mesmo assim sou receptáculo dela. Eis a insolência.
Escolhi uma vida heterodoxa desde minha chegada a este mundo. Minha mãe era bastante devota, e meu pai um austero indivíduo que não admitia falhas familiares. Já tinham um filho, imprestável irmão que hoje nada é, e o senhor daquela casa fétida não queria outra criança a interromper-lhe as meditações em Kant que ele tanto apreciava. Este velho permeou sua vida, o induziu a ser medíocre, pusilânime, o mais imbecil dos homens de bem... hahahaha... ele não queria mais uma criança. No sexto mês de gravidez minha mãe o informou daquele fardo que estava por vir; o grande pai, obviamente, a acusou de ser irresponsável e idiota, por ter aberto as pernas para seus impulsos sexuais animalescos num momento de crise financeira a qual estava atravessando. Um abrir de pernas, eis o que sou! Deste movimento, do qual participam tanto humildes camponeses, funcionários públicos, prostitutas, bichas, padres, pastores, papas, deuses... desta passividade que é ao mesmo tempo o principal movimento da criação, nasci, numa noite de chuva num inverno prussiano qualquer. Estas pernas abriram-se novamente para regurgitar este corpo marcado pela má formação, impedido de ser rotulado como normal, algo válido, digno de apreciação pelos vizinhos, pelos perentes; meu corpo é disforme, realmente aviltante, até para mim, acostumado a inconveniências. Este foi meu primeiro desafio, e cresci com este fardo inicial.
A região em que vivíamos era torpe e cheia de pobreza e miséria. Éramos os mais saudáveis economicamente, e isso atraía a atenção dos corpos em farrapos, destruídos pela avareza dos príncipes e padres locais, que iam à nossa residência frequentemente. Minha mãe, em nome de deus, era solícita e juntava o que sobrava de nossa mesa e abastecia a fé daqueles que achavam que o senhor era provisão aos desamparados. Da pequena janela de meu quarto, onde gostava de passar os dias longe dos olhos de meu pai, sempre a observar minhas truculências físicas, eu via estes vultos, e os achava deploráveis; sempre submissos, aos céus e às beneces terrenas. Deveriam existir, acho, porque sem eles minha mãe, e tantas outras carolas, não poderiam exercer a caridade, a fraternidade tão pregada e tão valorizada; sem eles os vigários de cristo seriam apenas homens sem muito sentido; os poetas seriam apenas escrivães de um sentimento tolo; o amor serviria apenas para justificar os erros que cometemos com o outro; seríamos piores sem os menores.
Exigi de minha mãe que o meu quarto fosse no último andar, num total de três, e que lá fosse feita uma pequena biblioteca, um escrivaninha e o silêncio fosse total. Odeio barulho. As crianças têm comigo uma dívida neste aspecto: elas têm em seus ruídos estridentes um ar asqueroso, vil. Saio com uma certa frequência a alguns bares hoje, e lá existem crianças, não chego perto delas. Na época de minha narrativa, eu as repudiava ainda mais, tanto pelo fato de seus gritos guturais insanos, a sair pela casa em desvairada idiotice, quanto ao fato de não serem comedidas; dizem o que se passa pelo cérebro, sem filtros ou qualquer distinção. Muitas vezes estava em minha solidão disforme e eles vinham, os vizinhos ou outros garotos e garotas amigos do meu irmão, e todos ficavam a me olhar de maneira repugnante, como se ali estivessem diante de um inseto esmagado, uma barata ou um rato. Eu sempre percebi as expressões dos rostos, os coxixos e os risos baixos quando estes se deparavam com minha estrutura raquítica e horrorosa. Os mais velhos tinham o mesmo hábito, a mesma forma de analisar o estranho, o pavoroso, de maneira a quase vomitar a meus pés. Por isso sempre me isolei de todos, por achar que minha aparência era detestável e insignificante. Meu pai tinha vergonha de mim. Meu nome era impronunciável naquela casa.
Finalmente, a liberdade. Não aguentando mais a situação de possuir um inválido em casa, meu querido paizinho pediu ao seu irmão, que morava em Paris, que me levasse quando este voltasse para casa. Paris! Meus livros estavam certos, não existe lugar mais interessante! Este meu tio era uma exceção benéfica em minha família. Homossexual, mas que não tinha a coragem necessária para assumir, nem ao Estado nem á família, mas que sempre fez questão de afirmar a mim tal condição, quando vinha ao meu quarto para dormir, era um daqueles espíritos que não se emporcalhavam com o luteranismo nem mesmo com a alma alemã casta e velhaca dos meus pais. Culto, ateu, amante incondicional da vergonha e do despudoramento, lia para mim os trechos mais apaixonados dos autores que tínhamos em comum, todos perversos, miseráveis com o homem, imorais . Certa noite ele veio à minha cama, deitou-se ao meu lado e disse que nunca havia chupado um sobrinho, ainda mais naquela minha condição trôpega. Perguntou-me se já havia tocado em meu pênis com outra intenção que não fosse mijar; eu disse que havia feito algumas experiências, mas que os meus tremores e sudoreses não permitiam êxito em gozar. Aquilo parece que o estimulou, e sem cerimônia agarrou meu pau, já um tanto ereto com tudo aquilo, e enfiou guela abaixo, num movimento que eu nunca havia sentido antes. Preciso deter-me nesta abordagem, não perderia falar de um dos únicos momentos de prazer que tive na vida.
Eduard, meu tio, estava ali, com meu membro em sua boca, chupando-o com avidez, e cada vez mais sentia que o meu pênis ficava ainda mais duro, receptivo ás carícias, aos trejeitos que ele me proporcionava. a cama rangia bastante, e eu por um momento tive de me desviar daquele sentimento agradabilíssimo para me preocupar com os outros lá embaixo. Mas Eduard tinha lá seus recursos, e ficou de joelhos, como um serviçal, implorando pelo meu pau, e eu fiquei sentado à cama, dando de bom grado o que tanto queria. Pela primeira vez vi a insolência; pela primeira vez vi a quebra de todo paradigma hierárquico-familiar, o vi desaparecer em nome da luxúria. Seria normal um pai seduzir e comer sua adorável filha, com mamilos nascendo, ou uma mãe entupir sua vagina com o pênis vigoroso de seu filho adolescente e potente, mas um tio se sujeitar aos caprichos de um sobrinho aleijado apenas para abocanhar seu membro? Sim, a insolência se apresentava ali, flertando comigo e esperando resposta, esta que eu não demorei em nenhum momento a conceder. Venha, santa insolência, sussurava ao ouvido daquele homem devorador enquanto se satisfazia, e de repente o gozo, a gênese, veio à sua boca furiosa, e ele tomou toda aquela síntese de prazer como um elixir, uma ambrosia. O prazer é o único momento feliz de nossas vidas, não é verdade? Tudo fica em segundo plano: deus, eu, você, a paz, a guerra, tudo fica para depois quando se está gozando, e aquela gozada foi primorosa, porque nunca tinha gozado antes. Depois disto, meu tio sentou-se, ainda limpando a boca com os pingos que restaram, resvalou-se na cadeira, pegou Homero e leu, em silêncio. Fiquei um tanto assombrado, mas percebi logo ali que ser insolente era ser cínico, tratante, fazer coisas que a humanidade acha absurda e intolerável como se estivesse recebendo a hóstia consagrada, ato normal e santo. Deitei e dormi, como todo rapaz pleno, saciado.