10 de janeiro de 2010

Tratado sobre a Insolência - Parte II

E assim pude enfim vislumbrar o mundo. Estava chovendo quando Eduard colocou-me no carro e pedi, angustiado, que fóssemos embora o mais rápido possível. Não olhei para trás. Não senti qualquer ardor de um início de saudade da casa paterna; para mim aquele lugar era maldito; ali eu fui gerado, na imundície de um sistema de hipocrisia e farsa, onde os homens são impolutos e as mulheres submissas, onde a família é o bem maior que se pode possuir, e a fome a miséria são disfarçados pela maquiagem torpe de um cargo público inútil. Realmente não olhei para trás, tudo o que eu visualizava naquele momento sutil era o futuro, ele que já estava como uma cortina belíssima a se desvendar, a mostrar sua face. Meus livros, minhas roupas surradas, tudo ficou, não quis mais nenhum resquício daquela vida infeliz.
Eduard estava empolgado com a ideia de me levar à Paris. Disse com uma ênfase contagiante que eu iria gostar do lugar onde morava. Rua do inválido. Hahahahaha! Belíssimo! O que mais poderia me acontecer de tão excitante? Estava infinitamente feliz pelo meu papaizinho ter tido a brilhante ideia, a única que teve em toda a vida, de me renegar, me abandonar a própria sorte num lugar gigantesco como Paris, com um tio pervertido, homossexual e beberrão. Qual favor ele me fez! Estou a caminho do desconhecido, mas vou como um guerreiro ao Vahalla, depois das lutas terrenas, o descanso dos heróis! Não tinha amigos, não tinha namoradas, não tinha nada a me apegar.
Minha locomoção era grave, pois minha paralisia tomava-me por inteiro; mãos, pés, articulações, braços, pernas, tudo corrompido pelo parto mal feito. Mau consigo falar com naturalidade, poucos são os que entendem o que sai de minha boca; torta, mal cheirosa. Meu belo tio adaptou algo como uam cadeira, duas rodas de bicicleta, pés que Deus não permitiu que os tivesse para caminhar pelo mundo, mas que um homem sujo em uma viela escura tratou de conseguir. Para que precisamos de Deus, se os homens são extremamente adaptáveis? Hahahahhaha! Eduard já conseguia entender o que eu balbuciava com dificuldade, e assim conseguámos manter algum diálogo quando a noite não estava boa para um passeio, ou a biblioteca estava fechada.
- E então, o que acha de Paris?
- Um espetáculo! Agora entendo porque os prussianos são tão invejosos e querem tomar a todo custo esta bela cidade! Aqui existe aquela sutileza que não é vista em parte alguma da Alemanha, até as mulheres são mais interessantes... diga-me, Eduard, trazes mulheres para tua toca?
- Raramente. As impressões femioninas são importantes para os efeminados. Na verdade, somos meros imitadores daquilo que a mulher é, e elas devem sempre estar em nosso séquito, senão na cama, no bar.
- E as igrejas? Pretendo ir a alguma missa...
- Hehehehe... o que pretendes fazer num templo cristão, garoto?
- Busco a face de Deus... ele me deve explicações... certamente, como dizem os papas e bispos, eu acharei o fanfarrão em algum lugar na França, a filha da Igreja. Leve-me assim que puderes.
- Tudo bem. Posso levar-te agora, se quiseres.
- Uma bela tarde de inverno... sim, mas preciso lavar-me... tens isso que chamo de corpo a teus cuidados, olhe bem o que farás com ele.
- És meu sobrinho, o que poderia te fazer de mal? Aproveito e me delicio de alguma forma...
- Levas-me á perdição, titio... és um crápula...
- Tuas funções vitais são excelentes, e teu membro ainda mais, e é isso o que se procura por aqui... bons membros rijos... e os dos germânicos são apreciadíssimos!
- Pensei que todo teutônico que aportasse em Paris ou em qualquer outro lugar fosse passivo... hehehehehehe!
- Alguns sim, meu adorado sobrinho, alguns sim. Vês este teu parente, que delira ao menor toque de um militar ou grumete de Hamburgo ou Leipzig... digo a todos que sou francês, pois alguns não comeriam outro germânico, têm lá seus pudores estranhos! Lavo-te com destreza?
- Minha mãe não poderia fazer melhores abluções orais... hehehehe... no demais, és medíocre.
- Sim, medíocre tratando-se das conveniências. Não há nada melhor do que a mediocridade das coisas comuns! Uma vida como a sua não deve ser legada á mediocridade, pois o simples fato de teus pulmões inflarem e teu coração bater, além da tua virilidade espantosa, já poderiam ser sinônimos de força e fé na vida. Tua preocupação em expor-se ao mundo é valorosa, e estou contigo, não temas!
- Obrigado, pobre cavaleiro! Agora vem e enxuga-me, está fazendo um frio dos diabos aqui... como o inferno de Dante...
- Vamos a uma pequena igreja aqui perto, quem sabe não encontres o velho deus por lá.
- Excelente! Tua invenção foi testada? Não cairei na rua?
- Por certo que não. è resistente e tua compleição é franzina. Lavei tua roupa hoje e creio que está a gosto. Vamos.
Saímos a procura desta capela, onde Eduard me levava. Nesta minha primeira incursão aos campos da liberdade, decidi ir de encontro a Deus. O pó, uma pequena parcela do nada, em busca do Criador, do Onipotente, e , principalemente, do Onisciente. Acostumar-se com um corpo doentio é tão difícil quanto esperar por uma resposta dos céus. Mas aí se encontra um exemplo de insolência, pois mesmos sabendo que nada virá do alto, nenhum murmúrio, nenhum recado, mesmo assim o desafio se lança diante dos que creem, dos que perdem o seu tempo em venerar o vácuo, o zero. Uma porta maciça nos separava do átrio da igreja, e entramos, altivos. Os olhos dos espectadores do grande circo, uma vez e mais uma tão afetado e entendiante, com o mesmo palhaço ostentando suas insígnias romanas, os olhos daqueles que ali estavam captaram minha pobre figura e não mais se distraíram. Fui para frente, bem próximo ao altar; cretamente o padreco nunca vira tão horrenda criatura, mas ali, diante da saliva que eu nunca pude controlar, a cair de minha boca, meu tio a enxuga-la, o sacerdote voltou a entoar seus ritos funestos, enquanto os fiés já não se preocupavam com seus pecados, em expia-los, e cometeram o pior dos pecados imagináveis: não dar atenção a Jeová. Tudo foi quebrado, uma vez que ninguém mais notava a cruz e sua dor, viam a dor real, um ser humano factual, e sua insolência em participar da vivência dos sãos... hahahahahahha!


6 de janeiro de 2010

Tratado sobre a Insolência - Parte I

É uma força que me move, alavanca-me quando penso em ser apenas um qualquer. Um corpo saudável e jovem, certamente, auxilia nesta competência, mas mesmo assim sou receptáculo dela. Eis a insolência.
Escolhi uma vida heterodoxa desde minha chegada a este mundo. Minha mãe era bastante devota, e meu pai um austero indivíduo que não admitia falhas familiares. Já tinham um filho, imprestável irmão que hoje nada é, e o senhor daquela casa fétida não queria outra criança a interromper-lhe as meditações em Kant que ele tanto apreciava. Este velho permeou sua vida, o induziu a ser medíocre, pusilânime, o mais imbecil dos homens de bem... hahahaha... ele não queria mais uma criança. No sexto mês de gravidez minha mãe o informou daquele fardo que estava por vir; o grande pai, obviamente, a acusou de ser irresponsável e idiota, por ter aberto as pernas para seus impulsos sexuais animalescos num momento de crise financeira a qual estava atravessando. Um abrir de pernas, eis o que sou! Deste movimento, do qual participam tanto humildes camponeses, funcionários públicos, prostitutas, bichas, padres, pastores, papas, deuses... desta passividade que é ao mesmo tempo o principal movimento da criação, nasci, numa noite de chuva num inverno prussiano qualquer. Estas pernas abriram-se novamente para regurgitar este corpo marcado pela má formação, impedido de ser rotulado como normal, algo válido, digno de apreciação pelos vizinhos, pelos perentes; meu corpo é disforme, realmente aviltante, até para mim, acostumado a inconveniências. Este foi meu primeiro desafio, e cresci com este fardo inicial.
A região em que vivíamos era torpe e cheia de pobreza e miséria. Éramos os mais saudáveis economicamente, e isso atraía a atenção dos corpos em farrapos, destruídos pela avareza dos príncipes e padres locais, que iam à nossa residência frequentemente. Minha mãe, em nome de deus, era solícita e juntava o que sobrava de nossa mesa e abastecia a fé daqueles que achavam que o senhor era provisão aos desamparados. Da pequena janela de meu quarto, onde gostava de passar os dias longe dos olhos de meu pai, sempre a observar minhas truculências físicas, eu via estes vultos, e os achava deploráveis; sempre submissos, aos céus e às beneces terrenas. Deveriam existir, acho, porque sem eles minha mãe, e tantas outras carolas, não poderiam exercer a caridade, a fraternidade tão pregada e tão valorizada; sem eles os vigários de cristo seriam apenas homens sem muito sentido; os poetas seriam apenas escrivães de um sentimento tolo; o amor serviria apenas para justificar os erros que cometemos com o outro; seríamos piores sem os menores.
Exigi de minha mãe que o meu quarto fosse no último andar, num total de três, e que lá fosse feita uma pequena biblioteca, um escrivaninha e o silêncio fosse total. Odeio barulho. As crianças têm comigo uma dívida neste aspecto: elas têm em seus ruídos estridentes um ar asqueroso, vil. Saio com uma certa frequência a alguns bares hoje, e lá existem crianças, não chego perto delas. Na época de minha narrativa, eu as repudiava ainda mais, tanto pelo fato de seus gritos guturais insanos, a sair pela casa em desvairada idiotice, quanto ao fato de não serem comedidas; dizem o que se passa pelo cérebro, sem filtros ou qualquer distinção. Muitas vezes estava em minha solidão disforme e eles vinham, os vizinhos ou outros garotos e garotas amigos do meu irmão, e todos ficavam a me olhar de maneira repugnante, como se ali estivessem diante de um inseto esmagado, uma barata ou um rato. Eu sempre percebi as expressões dos rostos, os coxixos e os risos baixos quando estes se deparavam com minha estrutura raquítica e horrorosa. Os mais velhos tinham o mesmo hábito, a mesma forma de analisar o estranho, o pavoroso, de maneira a quase vomitar a meus pés. Por isso sempre me isolei de todos, por achar que minha aparência era detestável e insignificante. Meu pai tinha vergonha de mim. Meu nome era impronunciável naquela casa.
Finalmente, a liberdade. Não aguentando mais a situação de possuir um inválido em casa, meu querido paizinho pediu ao seu irmão, que morava em Paris, que me levasse quando este voltasse para casa. Paris! Meus livros estavam certos, não existe lugar mais interessante! Este meu tio era uma exceção benéfica em minha família. Homossexual, mas que não tinha a coragem necessária para assumir, nem ao Estado nem á família, mas que sempre fez questão de afirmar a mim tal condição, quando vinha ao meu quarto para dormir, era um daqueles espíritos que não se emporcalhavam com o luteranismo nem mesmo com a alma alemã casta e velhaca dos meus pais. Culto, ateu, amante incondicional da vergonha e do despudoramento, lia para mim os trechos mais apaixonados dos autores que tínhamos em comum, todos perversos, miseráveis com o homem, imorais . Certa noite ele veio à minha cama, deitou-se ao meu lado e disse que nunca havia chupado um sobrinho, ainda mais naquela minha condição trôpega. Perguntou-me se já havia tocado em meu pênis com outra intenção que não fosse mijar; eu disse que havia feito algumas experiências, mas que os meus tremores e sudoreses não permitiam êxito em gozar. Aquilo parece que o estimulou, e sem cerimônia agarrou meu pau, já um tanto ereto com tudo aquilo, e enfiou guela abaixo, num movimento que eu nunca havia sentido antes. Preciso deter-me nesta abordagem, não perderia falar de um dos únicos momentos de prazer que tive na vida.
Eduard, meu tio, estava ali, com meu membro em sua boca, chupando-o com avidez, e cada vez mais sentia que o meu pênis ficava ainda mais duro, receptivo ás carícias, aos trejeitos que ele me proporcionava. a cama rangia bastante, e eu por um momento tive de me desviar daquele sentimento agradabilíssimo para me preocupar com os outros lá embaixo. Mas Eduard tinha lá seus recursos, e ficou de joelhos, como um serviçal, implorando pelo meu pau, e eu fiquei sentado à cama, dando de bom grado o que tanto queria. Pela primeira vez vi a insolência; pela primeira vez vi a quebra de todo paradigma hierárquico-familiar, o vi desaparecer em nome da luxúria. Seria normal um pai seduzir e comer sua adorável filha, com mamilos nascendo, ou uma mãe entupir sua vagina com o pênis vigoroso de seu filho adolescente e potente, mas um tio se sujeitar aos caprichos de um sobrinho aleijado apenas para abocanhar seu membro? Sim, a insolência se apresentava ali, flertando comigo e esperando resposta, esta que eu não demorei em nenhum momento a conceder. Venha, santa insolência, sussurava ao ouvido daquele homem devorador enquanto se satisfazia, e de repente o gozo, a gênese, veio à sua boca furiosa, e ele tomou toda aquela síntese de prazer como um elixir, uma ambrosia. O prazer é o único momento feliz de nossas vidas, não é verdade? Tudo fica em segundo plano: deus, eu, você, a paz, a guerra, tudo fica para depois quando se está gozando, e aquela gozada foi primorosa, porque nunca tinha gozado antes. Depois disto, meu tio sentou-se, ainda limpando a boca com os pingos que restaram, resvalou-se na cadeira, pegou Homero e leu, em silêncio. Fiquei um tanto assombrado, mas percebi logo ali que ser insolente era ser cínico, tratante, fazer coisas que a humanidade acha absurda e intolerável como se estivesse recebendo a hóstia consagrada, ato normal e santo. Deitei e dormi, como todo rapaz pleno, saciado.

13 de dezembro de 2009

O dia que não aconteceu - final

Era tudo imprevisível. O mundo estava bastante tenso, dava pra sentir. Os beatles estavam também em uma fase ruim, se dissolvendo em brigas por grana e ideias. John havia encontrado Yoko, e o mundo não aprovou aquilo. Até quando um fã pode entrar na vida do seu ídolo, intrometer-se, opinar sobre seu trabalho, sobre sua vida? Eles eram os caras mais notados do mundo, e estavam se separando...
1970. O mundo, triste, observa o fim, nas canções do Let It Be. Eu estava num período complicado nesta época, perdendo também coisas importantes pra mim. Jane estava comigo em todos os momentos importantes pra mim; durante anos foi minha companheira, meu refúgio certo, seguro. Nos separamos havia pouco tempo. Tudo para mim ficou em segundo plano depois daquilo, até as pipocas. Comprei este disco pelo seu título sujestivo e tocante. "Deixe Estar". Os quatro rostos que sempre vi em revistas, tv, jornais, estavam ali leves e ao mesmo tempo artificiais. George tem o rosto mais agradável, Ringo o mais propício áquele momento de crise, Paul e seus olhos grandes, sempre significativos, e John, cantando despreocupado. Let It Be me levantou o astral, e aquele misto de nostalgia e de novas esperanças de vê-los em breve juntos.
Nestes últimos 10 anos muita coisa aconteceu na música, assim como na vida das pessoas. Nada pode ser medido em escala confiável, algo que possa nos dar segurança no futuro; o tempo correu rápido demais e agora estamos aqui, 1980, eu com minhas pipocas, num carrinho melhor, um frio de rachar a alma, em frente ao edifício Dakota. John sempre foi para mim um baluarte, um mentor, um ícone para se ter como referência. Suas intermináveis batalhas para permanecer nos EUA foram finalmente vencidas, e ele preferiu ficar conosco,aqui neste país democrático, injusto, mas que sempre o agradou. Tenho o privilégio de trabalhar na porta de sua casa, vê-lo quase todos os dias, muitas vezes até falar com ele. Lembro de uma vez em que ele veio comprar um saco de pipocas para Sean, e eu pela primeira vez pude falar com o homem que havia mudado minha vida, para melhor.
- Senhor Lennon...
- Sim...
- Gostaria de dizer que aprecio sua música... ela realmente me toca bastante...
- Oh, que bom... as canções sempre têm este objetivo... se surtiram efeito em você, só posso ficar satisfeito...
- Em mim e em milhões... o senhor deseja manteiga?
- Sim...
- Aqui está o seu troco... muito obrigado... a propósito... o senhor podria me dar um autógrafo?
- Pois não...
Ele assinou seu nome na tampa do carrinho. Aquilo foi fantástico! Agora muita gente poderia ver o autógrafo ali, uma marca indelével de que o leão-marinho esteve comprando pipocas comigo... tornei aquele ponto um lugar perene...
O frio era imenso... Dezembro sempre foi um mês agitado. Eu estava ansioso para ouvir o mais novo disco de John.. Double Fantasy... realmente estava afim. De uns dias para cá eu havia notado um roto diferente dos que geralmente frequnetavam aquele local, ponto de peregrinação para beatlemaníacos e novos fãs do trabalho de John . Ele tinha uma expressão acuada, cinzenta; um casaco comprido e um livro na mão, ele sempre estava ali, como que esperando alguma coisa, ancioso. Por diversas vezes sentei-me para descansar ao seu lado, e até arrisquei uma conversa, que não deu em muita coisa. Perguntou-m ese o senhor Lennon saía com frequência do apartamento, e queria autografar um disco, o Double Fantasy, que trazia tambem nas mãos. Uma noite dessas, John saiu meio apressado, com Yoko e outras pessoas, e este jovem que ficava ali inerte ,aguardando-o, levantou-se rapidamente e foi ao encontro do seu ídolo. Um diálogo aconteceu e John autografou o disco. Saiu, entrou em seu carro e saiu. O rapaz ficou no mesmo lugar de sempre, no banco próximo á entrada do prédio, e eu estava ali, ao seu lado, sem nenhum cliente.
Tarde da noite, John voltou também apressado, com Yoko apenas, meio que escondido para não ser abordado. Aquele cara, que já estava me dando nos nervos pois não saía daquele banco há alguns dias, levantou-se quando o viu. Num momento de impulso, saí em sua direção, com passos largos, afim de detê-lo. John estava feliz, era perceptível, e penso que às veze so assédio de fãs era irritante para ele. O rapaz quase corria, com a mão direita no bolso. Sua fisionomia havia mudado em alguns segundos, de uma expressão lânguida e sem graça para uma outra, revoltada e cheia de ódio, que me fez seguí-lo o mais rápido que pude. A entrada do prédio é larga e eu estava em vantagem de posiçãoe mrelação a´John, por isso consegui chegar junto dele com maior destreza; em sua frente, alertei-o que aquele homem que vinha em sua direção parecia querer machucá-lo, e fiquei em sua frente, quando senti algo quente entrando em meu corpo. A coisa se repetiu mais quator vezes. Minha visão parecia não mais obeceder ao cérebro e captar o que se passava, e John ficou atônito, sem saber o que fazer. Yoko chamou alguns policiais que estavam por perto, enquanto eu deslizava em direção ao chão, não mais sentindo meu corpo. O sangue começou a sair de minha boca, minhas mãos já não seguravam mais o braço de John, e ele me arrastou para dentro do prédio, mas era tudo inútil. Fui levado ás pressas para o Hospital Roosevelt, ali perto, mas morri poucos minutos depois, de múltiplas hemoragias. Dizem que John é um velho simpático e feliz... as pipocas já não são mais vendidas no Dakota.

12 de dezembro de 2009

O dia que não aconteceu

Nova York está tão quente... faz muito tempo que não vejo as pessoas tão à vontade com suas roupas, ignorando o inverno e o frio. Dezembro é sempre um mês de grandes expectativas; comprei um novo carrinho de pipocas. Os anos 70 foram difíceis, mas estamos aqui, e daqui a pouco é 1981. Nossa! Eu ainda estou jovem... 40 anos não é lá muita coisa, mas já vivi bastante, intensamente.
Os anos 60 foram os melhores! Ah, cara, você deveria ter visto aquilo! 1964... um ano que vai ficar marcado pra mim. Todo mundo estava ansioso para ver os rapazes londrinos que estavam agitando a Europa com seus cabelos despenteados e sua música americana renovada. Acho que foi isso que acabou atraindo a atenção da juventude; Elvis era nosso grande ícone, um verdadeiro senhor das massas, que com seu rebolado e canções para garotas, arrebatou todo um sonho de liberdade e rebeldia. Eu mesmo era bstante jovem quando ele apareceu, e não pude resistir a todo aquele apelo. Elvis sempre foi minha referência, minha música se resumia a ele, e quando saía para trabalhar com minhas pipocas, os cinemas estavam sempre lotados, todos assistindo aquele cara com cabelos engomados cantando suas músicas e mostrando como éramos, nós, os americanos do pós-guerra. Estávamos mais vivos do que nunca, inventando tendências, renovando os estoques de valores e abordagens juvenis para o mundo. Mas Elvis estava distante de nós agora, e algo lá pelos lados do Canal da Mancha anunciava o improvável: A América sendo reinventada e novamente colonizada pelos ingleses.
Já tínhamos aqui ouvido aquela sonoridade perfeita, o ritmo, conhecido, mas com vitalidade incomparável, desde 1963. Singles seus foram lançados por aqui e simplesmente estava atento a tudo, com minhas pipocas doces e salgadas. As reações nas ruas eram espetaculares, e todos aguardavam o momento em que aqueles caras viriam para cá. Em fevereiro de 1964, eu fui para o aeroporto JFK, disposto a vender e ver aquilo de perto. Eles estavam ali, meio tímidos,acanhados mesmo diante de tanta gente gritando e se contorcendo; o que será que passou na mente do John quando viu tudo aquilo? Nova Yok estava fria como o diabo.
O Plaza Hotel estava lotado de fãs em sua entrada, e foi difícil para os rapazes entrarem. Como já tinha vendido tudo o que tinha, aproveitei para espiar um pouco. O que era aquilo tudo? Milhares de pessoas amontoadas para ver quatro rapazes, ainda tímidos, entrarem no hotel e desaparecerem em meio a tantos seguranças e policiais. Nem o Elvis tinha feito aquilo antes! era tascinante, mas ao mesmo tempo, amedrontador. E eu continuava pensando: o que eles achavam daquilo tudo? estavam mesmo à vontade aqui? Pareciam mesmo pequenos diante do furacão. Na TV eles pareciam mais à vontade. A primeira aparição que fizeram foi sem dúvida emocionante. Paul e John, à frente, george um pouco mais recluso e Ringo logo atrás, numa harmonia impecável. Diziam que eles não ensaiavam para as apresentações, tudo era espontâneo, claro. Em casa, pude conferir seus rostos alegres e , mesmo assim, um pouco tensos, dos rapazes, mas no fim foi incrível. Os discos já vendiam como nunca se viu antes, e nos momentos de folga, lá estava eu com a vitrola ligada, o "A Hard Days Night" ecoando pela sala.
Chamaram toda aquela euforia de Beatlemania. Parecia mesmo algo assim; o mundo inteiro falava sem parar nos Beatles, com se eles fossem muito mais do que meros músicos do norte da Inglaterra; pareciam mesmo salvadores, messias, gurus enviados para para redimir o homem da mesmice, do tédio , da letargia que acabou acontecendo com o "American Way Life". Acho que aquela época deveria ser assim, um momento de transição mágica, entre a dor e a raiva que moveram as bombas de Hiroshima e Nagasaki e a força e a virtude dos jovens lutando por liberdades cada vz mais inovadoras, como o sexo livre e o pensamento aberto ao diálogo e ás mudanças. A América tinha dado o primeiro passo, e agora a europa já caminhava e mostrava aos yankees como a coisa funcionava. É claro que as guerras não cessaram por muito tempo, mas aquele começo era necessário.
Eu estava interessado naquela revolução, e fui contaminado pela euforia de estar ali, presente naquele momento. A rapidez com que as coisas mudavam, as gírias, as roupas, os pensamentos, as intenções, os rítmos; neste instante estávamos ouvidno "Shes Loves You", e ali, 1967, havia comprado um disco amarelo, com quatro figuras estranhas, remontando a animais, e um nome bem estranho - Magical Mistery Tour - na capa. A vibração era outra, os sentimentos também, e quando os meus ouvidos captaram a introdução melotrônica de "Strawberry Fields Forever", tudo fez sentido pra mim. O LSD era bastante consumido, eu mesmo já havia experimentado uma vez, em uma daquelas festas abertas para todos, promovidas por adeptos da teoria libertadora das drogas por Timothy Leary. Seu livro, "A Experiência Psicodélica" foi lido por John num momento em que estava procurando uma saída para as reverberações de sua fama repentina, o que ocasionou sua saída dos palcos com os Beatles e sua reclusão numa vida infeliz. Tudo isso estava à disposição em biografias e livros que eu lia avidamente. Minhas pipocas ainda eram vendidas da mesma forma, doces ou com manteiga, mas as pessoas não eram aquelas que vinham com olhares lívidos, ingênuos. Todo mundo estava "ligado", em sintonia com algo que não tinha ainda sido revelada, mas que certamente viria pelas mãos de algum salvador, ou salvadores. Lennon, ao escrever Strawberry Fields Forever, sabia o que estávamos procurando; ele mesmo estava procurando o que queríamos encontrar, pois ele mesmo estava aflito, parecia confuso, desnorteado, mesmo sendo um beatle, famoso e rico. "É fácil viver com os olhos fechados" , e tudo se encaixou, como uma luva em mão irmã.

Continua...

10 de novembro de 2009

Gula

Há pouco comemos um pequeno cachorro que se aproximou de nós, certamente procurando seu dono. Admito: não foi um prato suculento, uma iguaria francesa ou alemã, mas nos caiu bem. As bombas pararam um pouco de cair; como te disse num outro dia, estamos sem rumo, explorando outros locais mais seguros e fugindo de outros grupos maiores. A antropofagia tornou-se algo comum por aqui.

Você havia me perguntado sobre a situação atual de nosso país. Durante cinco anos, vivemos a glória e o horror de uma estabilização econômica e social, sem precedentes em nossa história. Uma nova percepção foi oferecida, elevando o nível intelectual da população, possibilitanto uma visão mais humanitária, fraterna, entre a coletividade. Nunca demos muito crédito ao fortalecimento das nossas forças armadas; na verdade, achávamos que isso vinha de encontro aos anseios que naquele momento eram vinculados aos quatro ventos por nossos grandes governantes. Eles haviam nos dito, e convencido, de que a paz era o melhor caminho, que não precisávamos investir bilhões em armas ou treinamento, pois a paz era uma realidade, e que os nossos vizinhos eram tão amistosos quanto nós naquele momento. Tudo foi investido em educação e embelezamento das cidades, trazendo a arte à vista, provocando uma maior sensibilidade nas pessoas, na imprensa, na polícia. Tudo era maravilhoso. Tínhamos esperanças realmente de que, com o projeto arrojado do nosso governo de eliminar os conflitos através do apaziguamento de qualquer sentimento de disputa ou intolerância, a nossa salvação e a de nossos filhos. seria certa .Infelizmente, pagamos caro por sermos ingênuos. A superpotência vizinha, um gigante bélico e o maior exército da terra, tinha outros planos para nós. Na manhã de um dia lindo de sol, quando todos estávamos em sintonia com a paz, mísseis de médio alcance atingiram nossas principais fontes de energia e as nossas unidades militares foram dizimadas por um avanço impressionante dos mais modernos caças supersônicos. Uma infantaria inimaginável transpassou nossas fronteiras de maneira colossal, destruindo tudo; nossa marinha nem saiu dos portos; tínhamos duas sucatas boiando lá; tudo se foi, toda aquela sensação de sossego, de harmonia, de irmandade que estávamos construindo. Os principais do nosso governo central fugiram, outros foram enforcados. Casas foram destruídas, a economia foi estagnada e tornou-se dependente do país inimigo, nossas mulheres foram violentadas, nossas crianças degoladas; todos os meios de obtenção de víveres foi confiscado e agora mantêm-se sob forte vigilância. Aliás, este foi o grande motivo da invasão. Esta superpotência, ao contrário de nós, planificou sua economia em indústria bélica e obtenção de tecnologia nuclear avançada, assim como transformar sua marinha, exército e força aérea em verdadeiros titãs. Não tiveram tempo para pensar em como alimentar o seu povo compenetrado na guerra. Nós, no entanto, tínhamos o smelhores celeiros e os melhores grãos da terra, e tudo era em abundância. Como um grande buraco negro, tudo foi arrastado para aquela grande boca, que até agora nos consome, recebendo uma modesta retaliação de alguns grupos de resistência, ainda empenhados em resolver o banho de sangue com diálogo e filosofia barata. E ainda estamos aqu; respiramos... não sei se vivos, e famintos.

Este tem sido o nosso grande problema. A fome assolou todo o país em escala imprescindível; no início havia alguns pontos onde conseguíamos comida, ou o resto , muitas vezes estragado, que os invasores depositavam no lixo. Mas de uns tempos para cá, acredite, eles não têm mais produzido lixo. Dizem que estão num processo avançado de transformação de resíduos em energia para manter os campos sempre verdes e as plantações em ordem. Água potável nos é enviada em quantidade que só dá para beber, mas comida é artigo raro. É claro que isso acarretou sentimentos diversos em todos; quando aparece algo, ou alguém, que avaliamos como comestível, avançamos com irracionalidade;não pensamos em moral, convenções ou pecadilhos. Não há pecado que se considere quando a fome faz o seu estômago doer. Temos um padre em nosso grupo. Ele no início ficou receoso quando juntamos uma criança que foi despedaçada por uma granada bem na nossa frente. Eu e mais dois esperamos a noite chegar, e quando o corpo estava frio, juntamos o que conseguimos e o assamos em uma pequena fogueira. Não houve nojo ou repulsa, o que vi foi a vontade insaciável diante das coxas, braços mais ou menos carnudos e vísceras daquele garoto. Nosso paladar já estava saciado, mas queríamos mais, como egoístas.Também perdi minha filhinha desta forma, e ainda vi quando uns homens a pegaram... seus gritos eram horríveis, e ela foi a fonte de alimento para aqueles que ali estavam. Não sei o que te dizer... quantos corpos já comi? Muitos. Desenvolvemos uma tão avassaladora fome que tudo o que comemos parece que não nos saciou plenamente, como no passado. Hoje o meu prato preferido são ratos cinzas, abundantes nos esgotos, alguns gatos que ainda existem e pardais. Estão por aí á vontade. São deliciosos . Nem sei mais qual o gosto da comida que tínhamos antigamente; se nos fosse oferecida hoje, seria rejeitada. O cachorro que comemos hoje rendeu uma briga enorme,e quase tínhamos mais um corpo humano para a janta. Juro que fiquei ansioso para um desfecho de sangue... Gula? O que você está falando! Comemos demais, é verdade. Quase não dividimos; o meu grupo não tem mantido aquele ideal fraterno de outrora... mas o que você quer que façamos? Temos que garantir nossa sobrevivência, que não sabemos até quando vai durar. Esta noção de que comer demais e demasiado é um vício já foi esquecida. Quando se está oprimido, não se pode pensar em bobagens deste tipo. Espero que tenha dito o que querias ouvir, mas agora vá... você pode ser visto, e sei que não quer ser o meu café da manhã ... he he he he... não volte mais. Adeus.