11 de outubro de 2009

Num necrotério qualquer...

Toda a noite, sempre às 22:00, comaçava o expediente do Dr. Plínio num necrotério qualquer, de uma cidade qualquer. É um serviço bastante útil. Os médicos legistas estavam ficando escassos. Ninguém queria saber do corpo quando morto; todos estavam preocupados com a vida pulsando sem parar nas festas, nos clubes, nas praças. O corpo era mais bem requisitado vivo, de preferência bem torneado e apetitoso. O Dr. Plínio não via desta forma. O morto era a razão do seu trabalho, seu ganha pão diário, e ele via beleza na morte. Quando estava de folga, nem notava os corpos esculpidos e trabalhados que passavam por ele; nem qualquer outro corpo vivo; estava mesmo ligado na morte. Na faculdade, preferiu optar pela Medicina Legal porque todos desprezavam seus mortos, óbvio que havia o choro e o impacto da perda, mas a coisa ficava resumida a isso. Percebeu que o morto era gente, mesmo morta, mas ainda era gente. O legista se encarregava desta última atenção, deste derradeiro cuidado imprescindível a descobrir as causas da partida, do momento do fim. Por muitas vezes ele ficava a olhar os corpos que, na pedra, já nao tinham sorrisos, lágrimas, desejos ou mesmo dor de barriga, mas que revelavam, mesmo assim, algum traço de personalidade; personalidade para ele bastante significativa. Refletia no que aquele pedaço de matéria, já desaparecendo, estava pensando quando morreu; se tinha alegrias, se era desprezado, se se sentia idiota ou infeliz. Um vivo não parecia ser tão diferente assim de um morto; quando viver significa estar atuante, tomar posição, agir, num trabalho constante de cansaço, revigoração e novo cansaço; vive-se, morre-se - de tédio, de amor, de angústia, de sono - e vive-se novamente.
Numa noite, o seu antecessor no plantão havia deixado um suicida para ele analisar. Um garoto, de 25 anos, resolveu que não deveria mais ser agredido, maltratado, humilhado, por ser gay. Um legista deve se preocupar com todos os detalhes, circunstâncias e atitudes que levam aquelas pessoas ao estado que ele os encontra. O corpo possui suas impressões, suas marcas, coisa íntima que em vida não se gosta de revelar, que demonstra o que somos, como vivemos, e porque morremos. Aquele jovem não tinha o esteriótipo corporal exigido pela juventude para ser feliz e bem aceito. Deve ter sofrido por muito tempo. Seu estômago possuía várias úlceras, prova de que não se alimentava direito; era obeso. O incômodo de estar deslocado deve ter posto fim aos seus dias desta forma. Um pescoço quebrado em duas partes por conta da corda que foi usada para enforcá-lo. Fechou-o e o pôs novamente no frigorífico.
Havia também uma garotinha, uns 7 anos, dilacerada pelo pai, morta á facadas. O estupro era aviltante. Mas o Dr. Plínio tinha todas as credenciais necessárias para estar ali, há 25 anos, no mesmo lugar, naquela mesma hora. Não tinha família, mulher, filhos. Era recatado e taciturno. Guardava ainda suas marcas, sua identidade por dentro do jaleco e das roupas surradas que vestia sempre. Também pensava nisso. O que ele tinha a revelar, em vida? Não adiantava muito se guardar, ficar num recato muitas vezes tolo, não ser verdadeiro ou mesmo sincero com quem se convive, não viver a vida como se pretende viver. Num necrotério, qualquer um que fosse, tudo era revelado. O pai da garotinha havia expelido seu sêmen, idêntico àquele que formou sua vítima, naquele pobre corpo franzino. Era horrível mesmo o estupro. Um café e algumas torradas eram testemunhas daquilo; depois dos devidos exames e de uma formulação da causa mortis, o cadáver da menininha finalmente estava em paz, nos braços da morte, e sob os cuidados do Dr. Plínio. Sentiu-se evasivo naquele momento. Ele sabia a verdade, muito antes talvez do que a própria polícia, que dependia dos seus serviços de espionagem cadavérica para desvendar o crime. Podia tranquilamente olhar para o pai daquele anjo e o reduzir a nada. Mas era frio demais para isso. confiava que ela estava bem melhor agora, no nada absoluto, onde ninguém mais iria acordá-la à noite, retirando sua roupa e reduzindo-a a um objeto. Se existia um deus que nos tornava infelizes neste mundo, a morte era este alívio, esta mãe que a todos embala.
O plantão estava chegando ao fim. O Dr. Plínio estava tranquilo; depois da assepsia necessária, tomava um bom banho, vestia aquelas mesmas roupas surradas, sua maleta com alguns compêndios médicos encerrados lá dentro, um chapeuzinho que usava para esconder a careca, e saía, deixando ao próximo legista o trabalho de cuidar daqueles mortos. Ele mesmo se achava um morto... soturno, verdadeiro, em paz...

10 de outubro de 2009

Diálogos acerca da arte e de um vendedor de Cachorro Quente

O espetáculo começa em instantes. Alguém da produção veio aqui e falou. Não pareço tenso ou algo que o valha, mas não queria fazer isso, pelo menos hoje. O que eu queria mesmo? Biscoito guffs com café amargo e leite. Se eu pedir isso aqui agora, ja já aparece, mas não é a mesma coisa não. Todo mundo está fazendo o que eu quero ultimamente; minha mãe, que sempre me achou sem talento, meu pai, que sempre me achou sem graça, a turma que conheço, e que hoje estava aqui, no camarim, enchendo meu saco pela "bela atuação como o vilão Vinni na novela que acabara ontem"; até a prostituta que comi ontem fez o que eu quis, em troca da minha grana. Esse era o x da questão. Grana. Não sou bonito, mas tenho talento; contra o talento só se levanta um inimigo: a inveja. Os outros são destruídos sem piedade. A revista semanal que circula pelo país inventando bobagens, coisa que todo mundo compra pra ter o prazer de sacanear com quem está ali, disse que eu estava me drogando. E daí? A droga da vida é minha, a grana é minha... tinha um bocado disso na minha carteira, e mais ainda no banco, e mais ainda por vir; o que eu queria agora é estar ali, no lugar daquele cara do cachorro-quente; daqui do alto dá pra ver as menores coisas ... anônimo, uma mosca que ninguém percebe, talvez com suas mazelas, querendo vender uns malditos cachorros pra pagar a luz e o conserto de umas goteiras que insistiam em cair, molhando o quarto do Joãozinho, ou Zezinho, ou o diabo... todo mundo tem problemas. Aposto que ele queria estar no meu lugar agora. Quando viu o carrão chegando, abrindo passagem e quase derrubando seu sustento, sua forma honesta de ganhar grana, no chão. Eu não ganho dinheiro honestamente. Esta arte que eu faço não é honesta. Essa porra é uma ilusão barata, não dá pra viver o que se representa, e todo mundo paga uma fortuna pra ver uma mentirinha cretina contada por um rosto conhecido, que nucnca vai poder ajudar a ninguém quando eles realmente precisarem , ferrados por terem acreditado naquilo que eles viram no comercial, na TV, no teatro, em qualquer lugar onde exista um artista. O artista mente pra ganhar dinheiro, e vive de maneira bestial, sempre vendido, sempre ferrado. Mesmo assim ele queria estar no meu lugar; os olhos dele evidenciaram isso. Acho que ali rolou essa troca. Um fodido querendo renunciar a sua vida medíocre, cheia de infortúnios, pra viver o momento de sucesso e grandeza do cara da novela, do teatro, que ia pra mais uma apresentação de mais uma peça consagrada, uma de tantas que ele nem podia ver... um cachorro-quente era bem barato... só compra sobrevida pra mais uma sessão de chuva , de sol ou de frio na frente dos teatros por aí, mais matéria-prima pra mais cachorros-quentes pra mais sobrevida... só dava pra olhar os cartazes e os letreiros luminosos, as luzes refletindo em sua cara, cegando-o. É isso. Todo mundo ali estava cego. Como eles não percebem que o que eu faço é merda, tolice? As vidas deles são mais importantes... eles não deixam que eu viva como eu quero, submeto-me a eles e eles a mim. É foda! Se eu sair por esta porta e , em vez do texto que eu decorei a duras penas, um textinho ridículo escrito por um cara metido a bosta, eu vomitasse tudo o que estou sentindo, se eu deixasse de ser o ator e fosse eu mesmo, eles ainda iam me aplaudir, dizendo "que magnífico, fenomenal, excelente atuação", as revistas, os jornais, todo mundo que coloca as merdas diárias na cabeça destes idiotas iriam de novo manipular, mentir, inventar coisas, fazer com que tudo aquilo, minha desgraça, fosse apenas arte. O cara do cachorro-quente ainda está ali, uma chuva dos diabos... sua casa deve estar inundada; seus filhos e mulher ali, colocando as coisas pra cima, não deu tempo pra tapar as goteiras, a grana não chegou. Ninguém compra a porra do "hot dog". Quanto está o ingresso desta bosta de espetáculo? Cacete! Dava pra comprar uns 10 cachorros! Falar das misérias humanas, das dores humanas custa caro, e só quem não tem problemas como aqueles tem grana pra pagar o ingresso. É assim. Quem vive na merda não tem dinheiro pra extinguir as goteiras de casa; quem tem dinheiro paga pra ver estas misérias mascaradas, bonitinhas, refletidas em rostinhos ainda mais bonitos, interpretando o que eles veem todo dia na rua. Nem o ator famoso, nem o público abastado têm goteiras em casa, têm? A rua alagou... onde foi parar o cara do cachorro quente, caralho? A chuva é burguesa... retira da frente o que considera lixo, pobre, já utilizado. Acenderam as luzes, o show vai começar... quando acabar esta droga quero um cachorro-quente... bastante mostarda e molho caseiro, por favor.

Uma Carta de Vida e de Morte

H

oje é o meu ultimo dia neste mundo. O mar à minha frente. 23 anos. Todo dia um tempo diferente. A luz já não capta os objetos com a mesma intensidade, lá fora as coisas estão tão comuns. Fui até onde pude. É estranho isso. Nunca quis ir a lugar algum. Preocupações com minha aparência, minha forma de andar, de ver o mundo; nunca fui muito bom nestas coisas, e o resto do mundo sempre foi muito injusto comigo. Se eu não incomodava ninguém, supõe-se que eu também não gostaria de ser importunado. Ninguém me deixou em paz um segundo nesta vida. A começar pelo meu próprio nascimento. Não que a barriga de minha mãe fosse uma boa morada, e que seu útero estivesse gerando ali um fruto amado, esperado. Aquela imbecil sempre me disse que fui um erro, uma distração – o cara que a comeu estava na hora do almoço, não deu tempo dela usar o preservativo – “camisinha maldita! Se não fosse aquilo, eu estaria bem mais saudável, ainda transando e me divertindo por aí, com o meu trabalho, e não aqui, velha, aleijada e com este encosto perto de mim”. Ela sempre repetia isso, quase todos os dias. Quando não repetia, estava tão bêbada que nem podia ficar em pé. Usava a bebida para justificar tudo. Varias vezes a espanquei quando ficava neste estado. Eu, um moleque. Nossa casa ficava um pouco distante das demais e isso me dava a vantagem de não ser interrompido por nenhum vizinho enxerido. Maldita mulher! Meu pai foi este operário atrasado que a penetrou. Nada mais sei dele. Minha mãe também o odeia, mas não mais do que eu. Ela diz que ele tirou sua liberdade, sua beleza, fazendo um “bucho” nela. O que uma prostituta deve esperar da sua merda de vida? Se estava ali para transar com qualquer um, deveria saber os riscos, ora. O mundo é cruel. A mulher que se submete aos cafetões e às ruas não deve ter muita coisa na cabeça. Eu o odiava porque sua cara devia ser suja, corpo e cara sujos, e que poderia estar por aí, zanzando pela cidade usando seu pênis como instrumento reprodutor de outros miseráveis como eu. Sou um acaso. Nem gente eu sou, apenas um acaso, um encosto.

Resolvi acabar com minha vida porque nada muda. Quando se é um mero acaso, um encosto, nada muda mesmo. Cresci um pouco mais, e a circunstância me retirou do convívio daquela idiota da minha mãe. A saúde publica funcionou, pelo menos uma vez, e veio com seus agentes recolher aquela maluca para alguma casa de repouso, sei lá. Devem ter a levado para o inferno, e isso me confortou um bocado. Um alívio tomou conta de mim, mas durou pouco. Uma velha, dizendo ser minha avó, apareceu lá no orfanato e me levou com ela, mas não sem resistência. Queria ficar com as outras crianças, rejeitadas como eu, símbolos de abandono e desgraça. A inocência nunca será motivo para que as coisas ruins deixem de acontecer... só um idiota acredita no contrário. Eu lembro que mordi tanto a mão daquela velha nojenta que quase a arranquei fora; ela era feia, feia demais. No caminho para meu novo lar, a velha me deu umas pancadas no rosto, dizendo a um velhote de cara bem estranha, que dirigia um fusca 68, que sua filha era uma infeliz, e que eu era o motivo de tudo aquilo. Minha mãe também era muito feia. Por que o juiz não escuta a opinião das crianças? Elas não deveriam ter a prioridade de escolher onde querem ficar? E se elas não acharem legal um outro lar, uma outra rua, uma outra gente cuidando delas? Era ridículo tudo aquilo. Uma mulher que nunca vi na vida agora dizia que era minha avó, e que a minha guarda ficaria a cargo dela; mostrou o documento e tudo. Vá à merda! Eu não estava nem ligando. Cheguei em uma casa um pouco melhor que a minha anterior. Aquilo era um pardieiro imprestável. Minha mãe e eu mal conseguíamos nos mexer de tão apertado, lugar feito de taipa e algumas lonas, à beira de um córrego imundo no lugar mais violento da cidade. Todo dia via cadáveres na rua. Já estava bem acostumado com aquilo, e já estava torcendo pra que nesta nova casa eu pudesse continuar a vê-los. Sempre gostei de cadáveres. Assistia a todos os jornais policiais, que traziam os presuntos mais quentes, aqueles que eram e que não eram da vizinhança. Era bem complicado mesmo; eu tinha que ir para a praça do bairro, uns 15 minutos andando, para ver isso. Mal comia,não podia nem pensar em ter uma TV.

Minha adolescência foi vivida nesta casa, desta suposta avó. Nunca achei que ela fosse minha parente. Sabia que ela tirava um dinheiro mensal de algum programa social destes, porque sempre queria saber das minhas notas na escola. Eu era bem medíocre nos estudos. Aprendi a ler com 4 anos, mas nunca demonstrei facilidade pra ninguém,; ficava teimando, apanhando na cara, a tudo suportando, só pra não demonstrar nada a ninguém. Tirava notas baixas de propósito. Quando enjoei daquilo tudo, já estava com 9 anos. Muita surra, beliscões, tapas na cara, noites sem comer. Eu nem ligava. Estava sempre cheio daquela velha cretina e do velhote que morava com ela, sempre se esfregando naquele traseiro flácido. Havia um terreiro de candomblé atrás da casa. Em dias alternados, o barulho era insuportável. Coisa de gente estúpida mesmo. Também havia uma igreja no bairro, e eu sempre ia com uns vizinhos, que insistiam em me levar para lá, numas festas de adolescente; acho que eles não queriam que eu estivesse ali a toda hora, vendo aqueles “demônios incorporarem”. Com os evangélicos a coisa não era diferente. Como eu odiei aquele ambiente, cheio de gente hipócrita e barulhenta. Valiam-se de sorrisos hipócritas e discursos vazios para conviverem “em Cristo”. Grande merda. Eu nunca tinha visto esse tal de Cristo, e se o visse, nem ligaria, não precisava de mais um maioral pra mandar em mim ou naquilo que eu queria fazer. Pra isso bastava aquela catimbozeira nojenta. Como eu tinha ódio daquilo. A religião era sem dúvida um negocio para idiotas, fracotes e bichas. Na escola dominical, que eu detestava mas sempre ia, sempre por causa dos meus vizinhos, eu lia e ouvia coisas absurdas. Já entendia alguma coisa. Segundo aquele livrinho preto, as pessoas se isentavam das merdas que faziam se negassem a si mesmos e tomassem uma cruz. Duas coisas absurdas. Primeiro, quem nega a si mesmo? Eu era tão turrão que morreria defendendo algo. Aquilo era baboseira pura, porque quando aparecia alguém precisando de ajuda no culto, ou necessitando de algo pra comer ou vestir, um copo com água sequer, ninguém negava a si mesmo, dando espontaneamente. Nunca vi isso. Só este Jesus conseguia tal feito. Por isso deveria ter sido o maioral. Segundo, este papo de tomar uma cruz era escroto. Várias estórias daquele livrinho comprovavam que nunca dava certo tomar esta tal cruz; o cara se ferrava todo. Ninguém queria se ferrar, apenas se dar bem, e era dose acreditar naquilo ainda, depois de tanto tempo. Agora eu sei porque fazem tanta questão de encher as igrejas com crianças; elas são bem suscetíveis, impressionáveis , e levam tudo a sério.

No terreiro era a mesma porcaria. Um monte de gente cantando numa língua que ninguém, nem eles mesmos, entendiam, e uma barulheira dos infernos. Cosme e Damião, dois santos católicos, metidos naquela bagunça de deuses iorubás, era ocasião obrigatória da minha presença naquela loucura toda. Uma mixórdia terrível. Aquele gosto pelo inexplicável e ilógico era demais pra mim, mesmo sendo um rapazote de 14 anos. Umas velhas bêbadas completavam a zorra, dançando sem parar. Diziam que “tinham um santo”. Daquele tempo em diante, preferi não acreditar em deus nenhum. Não valia a pena perder meu tempo com aquilo.

E então me tornei um homem, e nada mudava. Não tinha lugar pra ir, nunca. Preferia ir á praia, e ficar lá, sem tomar banho, apenas olhando aquilo tudo. Minha vida estava uma merda naquele tempo, hoje também está, mas naquele tempo era difícil pra mim. Quando ficava pelas ruas, pensando já ali em entrar no mar e acabar com tudo aquilo, nunca conseguia. Se eu fosse morrer com data marcada, sempre disse, quero ser enterrado pelo mar... Tinha sempre que voltar para aquele inferno de casa, e todo dia parecia com o anterior. Um dia foi diferente. Saí de casa com a roupa do couro e uma sandália. Não via mais alternativa pra mim senão optar em viver sozinho, à sorte. Tinha 20 anos, e não agüentava mais aquela sujeira toda, aquela gente cretina. Neste tempo de rua conheci uma garota. Ela era riquinha e tal, e gostou do meu jeito espontâneo e da minha opinião sobre Salinger. Por que gente rica sempre estava atrás de literatura e autores metidos a sabichões? Disse a ela que lia sempre esse cara na biblioteca municipal, no centro da cidade. Era o único mendigo que tinha permissão pra entrar. Lia tudo, e isso facilitou minhas idéias. Ela me disse que estava apaixonada. O que? Mais que droga! Só por que eu li Salinger? Como os ricos eram bestas! Entrei na dela e começamos uma parceria. Disse que eu ia sair das ruas logo, porque o velho dela era um grande empresário e que fazia tudo o que pedisse. Tinha um apartamento á beira mar, e me levou com tudo pra lá. Ela era doidinha mesmo, mas no começo era bem gente boa. Comprou roupas novas, me deu um banho, deu um trato em minha aparência de condômino das ruas, beijou minha boca e falou que estávamos juntos, bem assim. Depois de algumas semanas, disse que eu pertencia a ela. Não gostei daquilo. Como assim eu era dela? Sabia que cachorros tinham dono, galinhas tinham dono, mas gente? Sei lá se eu era gente... pelo menos não era eu ali vestido com aquelas roupas idiotas, da moda. Ela me jogou na cara tudo o que tinha feito, todos os favores. Eu comecei a compreender. Tudo aquilo era somente farsa, hipocrisia, mentira, pra ter alguém com quem sacanear, ter como objeto, escravo. Ela nem tinha jogado a roupa velha fora, disse que ia queimar, a peguei, tirei aquele lixo que estava vestindo, coloquei a minha roupa, única coisa minha de verdade ali, e saí. Sei que tinha muita gente querendo uma chance daquelas... seriam muito felizes inclusive; talvez um daqueles lá da igreja, do terreiro...

Hoje é o meu ultimo dia neste mundo. Já estou certo disso. A frustração ainda me consome... pelo meu pai, que nunca vi; pela minha mãe, chapada e maluca; pela velha, minha suposta avó e pelo velhote que se esfregava nela, sempre; pela igreja, pelo cara da cruz, aquele bobo; pelo santo do terreiro, que nunca entendi a língua. Um dia pensei que não poderia culpá-los. Já que estava aqui, deveria procurar mudar as coisas, viver de forma diferente. As leituras que fiz me disseram o contrário. Sempre tem alguém por trás de toda a merda que a gente sofre. Sei lá. Não ligo mais pra isso. Já chega. Romper com a vida vai significar pelo menos uma mudança. Única. O mar está impaciente... ele e a ressaca vieram com tudo; parece que estava lendo meus pensamentos quando eu ficava aqui, observando seus movimentos. Vi um dia os olhos do mar. Estava chovendo pra caramba, e eu estava tomando conta de um quiosque aqui perto, quando vi seus olhos. Um ponto fixo que a gente consegue captar e pronto, eles aparecem. Talvez porque eu já tenha desabafado tanto com ele, tenha sido minha única companhia em todo este tempo de rua; talvez eu o tenha estimado tanto por ele ter sido como eu sempre fui, sempre o mesmo, com suas tempestades, suas ressacas, suas calmarias, talvez por isso me tenha deixado ver seus olhos, sempre azuis. Às vezes ele era cruel comigo, trazendo uma ventania fria, a chuva com ela... mas quem não tinha sido cruel comigo nesta bosta de vida? O mundo era cruel comigo, e vi que não estive sozinho nessa; muita gente amargurada, chorando por aí. Mas danem-se! Não quero saber desses fracotes. Hoje é meu ultimo dia vivo. O mar está me chamando... talvez volte... o corpo mordido pelos animais marinhos... se tiver sorte, nunca mais volto aqui.

P.S: A quem encontrar estes papéis rabiscados, por favor, rasgue-os ao ler e ponha-os no lixo. Não suje a cidade...

6 de outubro de 2009

Ode ao Incesto - Última parte

Quis saber mais sobre o incesto. Não tinha certeza se aquilo era algo ruim de verdade. Os pastores falam demais; querem sempre a melhor parte... li alguma coisa nos livros velhos que tinha, e descobri que todas as culturas antigas não aceitavam o incesto por razões biológicas: o cruzamento entre parentes consanguíneos provocava alterações graves nos descendentes que poderiam ser gerados, causando anomalias, deformações e morte. Lembrava do versículo... ele dizia algo diferente... quando um homem se deitasse com sua tia, ele apenas iria descobrir a nudez do tio. Não era imputado a ele qualquer sanção, como por exemplo colher o trigo no sábado, ou tocar na arca da aliança, pecados passíveis de morte imediata. A única coisa que trazia o texto era que ambos iam morrer sem filhos. E quem queria filhos? A tecnologia do sexo está avançada; contraceptivos disponíveis no mercado, camisinhas... não havia mais incesto, a gravidez era algo remoto protegendo-se. Percebi isso justamente quando minha tia não saía mais da minha cabeça.
Mais um final de culto, mais uma demora para ir embora. Eu estava realmente incomodado com aquelas reuniões particulares de minha tia com o pastor Tobias; naquele dia eu resolvi espiar pela fechadura, coisa tão simples e que eu nunca havia pensado antes; talvez agora a coisa tivesse mudado de figura, talvez agora eu estivesse realmente a reparando , o seu corpo. Olhei , não tinha chaves, e a vi, saia levantada até a cintura, sentada no colo do pastor Tobias, com as pernas abertas, aquela bunda enorme cavalgando em cima do homem, que quase estava tendo um troço. Seus seios estavam enterrados na boca dele, e ela estava adorando tudo aquilo. Olhei um pouco mais, e depois fui para o meu lugar. Ao sair, depois do tempo necessário para o suor do rosto secar, ela saiu, vindo em seguida o pastor, com aquela cara de panaca. Se despediram com ao maior sinismo do mundo, e fomos pra casa.
No caminho , perguntei o que ela tanto fazia naquela sala com o pastor depois do culto. Ela falou que vem passando, há anos, por um problema de ordem espiritual, e que o pastor Tobias tinha muita fé, e a ajudava a "expelir aqueles pensamentos, colocando outros em minha mente". Perguntei que problema era aquele, que levava todo aquele tempo pra ser retirado, e ela calou-se. Disse que não podia dizer em hipótese alguma, mas que um dia eu iria saber. Neste momento, chegamos em casa.
Não ia mais aguentar aquilo. estava ficando sufocante, terrível mesmo. Meu tesão por minha tia ia crescendo a cada dia, a cada olhada naquele rabo, a cada lance de pernas, a cada abrir de boca. A faxina do sábado era o melhor dia para mim, pois todos estavam fora, só eu e ela em casa; a maldita usando um short curtíssimo, sem nada por baixo, um top que deixava 80% dos seios à mostra, com o rádio ligado em alto volume, cantando louvores a Deus. Que cara ingrato pé você, Iavé!!! Fez com que eu chegasse à adolescência, hormônios fervendo, pinto duro, querendo comer minha tia a tdo custo... não agunetei mais...num vacilo que ela deu, abaixando-se para pegar a vassoura, eu a peguei por trás, sem camisa, já pronto. Ela levou um susto, ficou parada esperando algum movimento meu, eu logo apanhei seus seios nas mãos, puxando os mamilos e alisando-os; ela gostou do que fiz e logo pegou minhas mãos e ajudou-me a fazer da forma que ela gostava. Virou-se e não perdeu tempo com reflexões sobre o caráter pecaminoso do incesto; derrubou-me no nosso velho sofá (pensei que ele não iria aguentar) retirou minha bermuda e fez aquilo que ela, ainda hoje, pratica com perfeição. Segurei sua cabeça enquanto ela realizava tudo, e depois daquilo, ela indicou-me o caminho para que eu fizesse o mesmo com ela. "Com a pontinha da língua" dizia, gemendo. Mostrou-me seu membro, duro, que ao mínimo toque de minha língua trazia a ela o maior de todos os bens; depois daquilo, coloquei-a de quatro, e a comi como um louco. Ela gritava de prazer, e pegava minhas mãos e colocava em seus peitos, e eu puxava os bicos com violência. Depois de algum tempo naquela posição, disse que eu queria que ela fizesse em mim o que costumava fazer com o pastor nos domingos, após o culto. Ela arregalou os olhos, mas estava tão sedenta de mim que nem deu muito crédito. Sentei no sofá, e ela, sentada em meu colo, abriu as pernas e cavalgou quase meia hora, colocando os peitos para que eu chupasse. Aquela bunda é mesmo o seu maior tesouro, tanto é que ela logo quis me dar. Colocou meu instrumento todo, sem gritar, apenas gemer. Até hoje ela gosta que eu a coma por trás, e eu não rejeito esta forma de amar. Depois, novamente de quatro, pediu que eu fosse mais rápido, fazendo com isso que ela gemesse até gozar; fiz o que ela me pediu, afinal , não gosto de decepcionar as pessoas. Depois daquele mar de sensações, ela deitou-me no chão,e novamente em cima de mim também me fez gozar muito. Nesta hora veio uma sensação estranha, de que tinha feito besteira; minha tia logo se adiantou, e disse que isso era normal quando os homens gozavam... geralmente ficavam bem racionais, pensavam muito mesmo. Fiquei mais tranquilo com essas palavras. Muitas vezes eu repeti aquele transa com minha tia, e ela até hoje, passados alguns anos, ainda me procura, e eu , como gosto do seu sexo, também a procuro. Hoje eu me sinto feliz. Não estou praticando nenhum pecado mortal ,digno de morte. Apenas não terei filhos, e morrerei, como todo mundo. Hoje estou feliz.

5 de outubro de 2009

Ode ao Incesto - parte 1

Cara, acho que agora sou feliz. Como é bom viver! Da forma como as coisas iam estava sufocante, terrível mesmo. Moro no subúrbio de Nothing Hill. Pra falar a verdade, moro numa favela. A pior de todas. Ninguém quer vir aqui... os governos, a polícia, Deus, o Diabo, a ambulância, o caminhão do lixo, o carro da casa funerária. Todos temem este lugar; a Morte mora ali... daqui mesmo eu vejo a sua casa. Poucos são os que se aventuram a vir morar aqui, e minha família se orgulha de ser uma das pioneiras. Aqui não tem nada. Uma escola decente;uma praça organizada onde os velhos possam se movimentar e as crianças possam exercer suas funcionalidades; uma pizzaria bacana e segura; uma sorveteria; um mercadinho; nem mesmo uma rua calçada, pra se colocar as cadeiras pra fora, conversar até as 22:00... eu ouvi dizer que existe um lugar onde tudo isso é possível... deve ser mentira.
Tem um bar, sabe... mas bar não é um bom lugar pra um sujeito como eu... afinal de contas, minha tia sempre diz que sou um cara bom... muito bom...
Havia um lugar onde toda a comunidade podia se reunir, mas não sem receio ou medo. A igreja. Ali havia fogo, trovões do céu, palavras de poder e ninguém saía sem uma bênção. Era medonho. Eu sempre vejo pessoas caindo, chorando, ajoelhadas, algumas poucas em estado normal. Mas quis Deus que assim fosse, e todos se encontram lá. Dez pessoas vivem comigo. MInha mãe, dois irmãos, uma irmã,quatro sobrinhos e uma tia, a Mariluce. Meu pai eu não conheci... uma bala perdida o alcançou antes, naquele bar que eu falei agora há pouco; essa minha tia é irmã dele.
Eu frequentava uma igreja aqui perto de casa. Minha tia também. Não via muito sentido naquilo, mas como ela sempre me chamava para lhe fazer companhia, eu ia de bom grado. Não gostava de decepcionar as pessoas. Os cultos eram barulhentos; o templo não tinha ventilador e os dízimos eram sempre cobrados; minha tia era bastante atenta às palavras do pastor, atenta até demais. Sempre quando acabava o culto, eu ficava esperando sozinho , mais de uma hora ,ela sair do gabinete pastoral. Ela sempre falava do pastor Tobias pra mim... "um homem sábio" dizia.
Foi numa destas vezes de domingo que algo me chamou a atenção ,profundamente. Eu nunca ligava para os sermões. Era massantes, chatos, e eu nunca era "tocado" com nenhum deles. Minha tia sempre dizia que aceitar a Jesus purifica do pecado, qualquer pecado. Sempre que ela cometia algum, pedia perdão e a coisa funcionava, pois ela dizia sentir "uma leveza, um bem-estar, que só o perdão é capaz de proporcionar". O pastor Tobias estava lá, com unção e poder. Falava de alguns costumes antigos, lá pelo tempo de Moisés. Citou vários versículos, um destes foi bem peculiar...

"
Quando também um homem se deitar com a sua tia descobriu a nudez de seu tio; seu pecado sobre si levarão; sem filhos morrerão."

Levítico 20:20. Nunca mais esqueci. O pastor perguntou como era conhecida aquela prática, e alguém gritou lá atras: INCESTO. Eu peguei a bíblia, enquanto esperava minha tia numa de suas longas comversas com o pastor no seu gabinete , e li, reli e li de novo aquela passagem. "Quando um homem se deitar coma sua tia"... deu pra parceber claramente que não se devia transar com tias, pois assim se desobriria a nudez do tio... eu só conhecia uma tia, e esta não era casada. Tinha 35 anos; naquela época eu já estava reparando suas curvas... ela se vestia com saias muito justas, denotando todo o seu traseiro enorme. tinha lindos seios pontudos e firmes, medianos. Pernas grossas, assim como lábios também grossos, completavam o conjunto. Eu gostei do que vi. Reparava também que, quando fazia aquele calor infernal e eu ficava sem camisa, em casa, minha tia me observava diferente; dizia que eu "estava um homem", e que as meninas deveriam estar loucas por mim. Estavam nada. Vieram depois as revistas de mulher pelada e as masturbações constantes. Logo minha tia estava lá, em minha mente fértil, todas as posições...

Continua...