3 de outubro de 2009

Recordações de um Amor Desgraçado

A chuva regava o cemitério naquela tarde escura. O caixão descia suavemente à cova com poucos espectadores, os necessários aos serviços funerários e eu. Fomos felizes. Edwin estava morto, e eu continuava a não aceitar o destino que se havia traçado; por que naquelas circunstâncias? Éramos assim tão desgraçados a ponto daquilo acontecer? O que fizemos de mais? Lembro ainda quando estávamos no hospital, aquele cheiro de éter desinfetando o ambiente, aqueles enfermeiros levando-me, separando meu corpo da única pessoa que amei na vida, e que agora fechava os olhos para sempre. Deus para mim nunca foi significante, e daquele dia em diante tornou-se sinônimo de ojeriza e repúdio.
Conheci Edwin na Universidade de Jerusalém. Naquela época, um pouco mais do que hoje, não eram permitidos sequer comentários nos conrredores sobre a atuação de professores gays no campus. Eu participava de pesquisas atômicas para o governo. O então Dr. Edwin Stevens, catedrático de Literatura Comparada, era discreto e fascinante. Negro, um tipo exótico naquele círculo, conseguira seu espaço no mundo acadêmico graças aos seus méritos individuais, independentes e sóbrios; doutorou-se em Oxford tratando de Oscar Wilde e sua prosa. Não poderia ser outro autor. Wilde sempre lhe despertou o interesse; quando estávamos deitados, depois da simbiose a qual nos metíamos sempre, sem avisos, porque sempre era a oportunidade perfeita para o amor, bastava nos olharmos, ou nos tocarmos ocasionalmente, ele lia para mim este trecho célebre do Retrato de Dorian Gray:

"sou de parecer que se o homem vivesse plena e totalmente a sua vida, desse forma a todo sentimento, expressão a toda idéia, realidade a todo devaneio... creio que o mundo receberia um novo impulso eufórico,um impulso de alegria que nos faria esquecer todos os males do medievalismo e voltar aos ideais helênicos..."


Vivíamos desta forma. Um mundo onde a dor não nos importunava, estávamos a salvo do ódio, da malícia, das más línguas, da inveja do mundo, do preconceito do mundo. O recato e a discrição eram requisitos fundamentais para que isso acontecesse, mesmo sabendo que em Israel nada podia estar longe do alcance da Torah e dos seus "representantes". Aquele livro foi o motivo de toda a nossa desgraça. Edwin o temia, não por suas palavras sempre agressivas aos gays, nem pela omissão que ela permitia nos casos de homofobia gritante, sempre levantadas, mas do poder que a palavra possuía. Ele, como nenhum outro, conhecia este poder, lidava com ele todos os dias, tratava destes assuntos quase sempre, e via nos olhos dos alunos, nas expressões das pessoas na rua, o mal que aquela má interpretação causava nas mentes. Não havia regras quando se tratava de desobediência ao livro sagrado, nem aos costumes judaicos.
Os costumes. Manter uma aparência era bem mais fácil do que assumir reais intenções. Um dia Edwin disse que iria de encontro àquilo. Iria usar de sua influência dentro da universidade para desenvolver uma cultura de tolerância, mesmo sabendo que não era possível uma totalidade, uma adesão massiva. Mesmo ali os dogmas dominavam, e os jovens estavam mais dispostos a manterem uma postura homofóbica, mosaica, talmúdica. Temi muito sua resolução, mas não poderia deixar de apoiá-la, afinal de contas também era parte daquela instituição, e também era gay. Mas Edwin queria mais. Não só a questão sexual seria levada à público nesta nova abordagem, mas também o fator religioso da sociedade israelense, principal base de argumento para o preconceito, o descaso e a falta de políticas públicas em favor dos homossexuais. Longe de ser um pedido ou um clamor, o projeto visava a inclusão do cidadão gay israelense nos negócios do Estado; nada mais justo, uma vez que estes eram cumpridores dos deveres com impostos e com as leis em vigor. "Não vamos pedir esmolas ou nos ajoelharmos, como é o costume daqueles que necessitam de perdão ou querem confessar algum crime, o que faremos é o reconhecimento formal da cidadania homossexual como um direito constitucional, que dita que todos somos iguais perante a Lei. Se assim não fomos considerados, deixaremos de pagar nossos impostos. Não seremos cidadãos de segunda classe neste país" dizia Edwin. Sutilmente ele começou a implementar esta discussão em sala de aula, trazendo o debate para todo o campus. Os reitores obviamente questionaram esta postura, e publicamente retrataram o movimento, dizendo que aquela instituição não iria compactuar com tamanha falta de vergonha e desrespeito aos judeus ali instalados. A Ação pelo Direito de ser Gay e Ateu - nome dado ao projeto, ganhava mais adeptos em toda a universidade. Mas as retaliações começaram a acontecer. Edwin e eu fomos demitidos sumariamente do campus, e fui também afastado do governo. Naquela altura toda a imprensa se mobilizava em nossa órbita, e suas demonstrações de parcialidade e até mesmo de deboche, em programas humorísticos e telejornais, irritavam, mas também eram esperados. Grandes corporações judaicas estavam por trás daquelas empresas de comunicação, e tudo o que elas queriam era a desmoralização do movimento. A grande massa nos detestava. Não tínhamos mais aquele sossego antigo, nem para chegar em casa. Nosso muro era constantemente agredido com palavras que mais pareciam aquelas dos tempos nazistas, quando aquele mesmo povo estava na berlinda. Como pessoas que foram taxadas de vermes e piolhos, maltratadas, humilhadas, assassinadas e reduzidas a nada em outros tempos poderiam estar admitindo este tipo de comportamento em relação a um grupo, simplesmente por não partilharem suas posições na cama, ou a forma como o prazer era encarado por eles, ou o deus que eles criam? Dizer que Deus estava zangado e que o inferno era o lugar dos sodomitas eram frases constantes neste ataques.
A coisa tomou proporções assombrosas. Grupos ortodoxos declaravam que iriam tomar atitudes drásticas em relação aos participantes daquela "infâmia contra Moisés". Achávamos que tudo aquilo era medo, receio de que os tempos estivessem a mudar, pânico de que suas instituições, aquelas mesmas tão antigas e tradicionais, estivessem erradas, e que um grupo estivesse se levantando, se organizando contra os abusos da fé que eles instituíram, mantendo-se no poder temporal e espiritual por tanto tempo. Nossa casa transformou-se em pouco tempo em um lugar de peregrinação para aqueles que ansiavam a liberdade, a hora de poderem expressar seus sentimentos, suas vontades, suas paixões, em praça pública, sem com isso quebrar qualquer regra, violar qualquer preceito legal. Uma marcha foi organizada para percorrer os principais recantos religiosos de Jerusalém, numa forma de partilhar os sofrimentos que o preconceito havia causado a uma parcela da população, assim como o Cristo fora rejeitado e humilhado. Este dia não poderá ser esquecido, pela sua audácia e pelo fato de que ali, naquele dia, o grande amor de minha vida foi retirado de mim. Estávamos à frente, com faixas exigindo o fim dos bloqueios aos profissionais gays nas universidades e instituições, quando o tiro foi disparado, atingindo Edwin no peito. Não pude me mexer. Tudo foi muito rápido. A multidão, tanto de simpatizantes quando de algozes, foram dispersadas com o estampido, e alguns próximos vieram em socorro. Fiquei paralizado; o meu maior medo havia chegado, pelas mãos de algum fanático que, por mais violento que fosse, também possuía uma família, um alguém para dividir uma vida. Ali ele tinha conseguido destruir a minha única família, meu único refúgio, depois da morte sentimental dos meus pais e irmãos, depois que descobriram minha seuxalidade, certamente apoiando aquele que acertou um peito aberto, pronto ao diálogo, pronto mesmo para aquele momento.
A ambulância demorou a chegar. A polícia fazia pouco caso, nem se aproximando de nós, que ali estávamos deseperados. Finalmente a ajuda veio, despreocupada, nitidamente alheia, mas veio. Fomos ao hospital mais próximo dali. Estava ali, sempre a tocá-lo, única forma de ainda percebê-lo vivo, em meio a tantos fios e tubos que o mantinham a respirar, que estancavam seu sangue. Ele olhava apenas, serenamente. Sabia que suas chances eram poucas; o tiro tinha transpassado seu pulmão, causando uma lesão seríssima. Ali também tive a certeza que o amava, e que ninguém, mesmo aquele tiro maldito, iria remover o que sentia, aquilo que estava dentro de mim.
Uma cirurgia foi feita. Os jornais todos enfatizavam que Edwin estava liderando uma passeata quando foi atingido, e alguns especialistas convidados analisavam os riscos de uma atitude como aquela, dizendo que foi algo "precipitado e infantil. Numa região dominada por fanáticos religiosos, o melhor a se fazer era ficar em casa". Malditos! Canalhas! Ficam em casa aqueles que não querem mudar a realidade, os pensamentos e as atitudes. Fomos em busca de aceitação, e recebemos cusparadas e açoites. Estávamos na Via Dolorosa quando o tiro foi disparado. Um enfermeiro veio e levou-me até o quarto. Os médicos tentavam reanimar Edwin, que havia tido uma parada cardíaca. Não tinha mais lágrimas para verter; o único impulso foi o me atirar à cama, tentando eu mesmo revivê-lo, beijando seu rosto. Os enfermeiros me retiraram depois de bastante esforço... foi a última vez que vi a minha vida , respirando.
As manifestações de repúdio ao episódio que ficou conhecido como "O Tiro da Via Dolorosa" foram várias. O governo disse que foi uma "fatalidade";a polícia afirmou que os culpado seriam identificados. Os rabinos oraram agradecendo a Deus pela graça alcançada. O povo... o povo foi com os rabinos. O movimento continua, até hoje, mas de forma bem mais recatada e seguindo os conselhos dos especialistas em segurança. Eu continuo a viver, agora apático, sombrio, sem forças. Sozinho com minhas recordações... apenas lembrando de Edwin... de nossa vida... agora sem graça e vazia. Senhores religiosos e amantes do preconceito, vocês conseguiram!

1 de outubro de 2009

Mais um, Assaltante...

Mais uma noite, tô na correria. Não espero que me entendam... gente como eu é odiada, por Datenas e seus catecismos na Tv, induzindo ao erro e gerando disformidade. É massa assim. Quero mesmo é o medo, playboizada em pânico Gente como eu é realmente odiada. Outro dia, naquela busca que dei na Conselheiro Aguiar, (foi uma noite agradável - Três relógios, umas carteiras e cinco celulares de ponta), aconteceu o previsto: tipo Hobbin Hood. Aqueles filhos da puta tinham muito, e eu, nada. Conquistaram todas estas bugingangas imprestáveis com esforço dos trabalhos bacanas que têm, e eu, retaliando com a facilidade da tecnologia Taurus 380. Não ligavam em perder nada daquilo. Pra eles era tudo merda, objeto fútil, só pra ludibriar os olhos das mulheres que lhe serviriam de escravas numa cama qualquer, de um motel qualquer. pra mim, aquilo servia de passagem. Voltando do trampo, era escambo certo; maconha , vinho e livro, pra relaxar a tensão. Eles tentam esquecer os seus traumas pagando psicanalistas;esquecer o que viram, aquela sensação desconfortável de medo e angústia pelo crime estar tão próximo deles, apontando em suas caras uma morte que não estava prevista, fim da curtição, da balada, do casamento infeliz,da vida medíocre.
Tinha grana naquelas carteiras de couro, e de dia, melhor camuflagem pra gente como eu, fui comprar alguma coisa pra comer e alguns livros. Vi naquela banca de jornal "A Desobediência Civil" de Thoreau. Gostei muito. A abordagem crítica aos governos, a maneira como ele vê e discute o papel das opressões exercidas por estes e principalmente, a tese que quem contribui com seu dinheiro, pagando imposto a um Estado desajustado e corrupto torna-se parte dele é fantástica. No meu barraco a luz é foda, mas eu consegui organizar uma mesinha, que achei no lixo ainda em condições, e um banquinho, também achado. Os livros já estavam aumentando de número, e quando eu chego tenho um ritual que não abandono: tomo um banho com a água que juntei antes de sair, em um balde, faço um pouco de café e leio, até umas oito. Vou dormir um pouco, quando a geral vai trabalhar, e quando acordo dou um trato no parceiro "cospe fogo", e nisso, na corrente sanguínea já alterada, já estou com novas idéias, novos assaltos em mente. Quando chove, fico receoso em perder meu patrimônio ,livros que me acompanham, única coisa que tenho de valor. Decidi que não vou ficar com a Carla. A gente tava curtindo e tal, mas não dá não. O barraco é apertado, e além do mais ela não sabe quem foi Thoreau. Diz que não serve de nada saber destas coisas. "É por isso", disse a ela outro dia, de manhãzinha, uma garoa fina, depois de um beijo, "que o fedor do córrego nunca passa, que os mosquitos nunca vão embora, que as vielas eram imundas, que os moleques tinham grandes barrigas e vez ou outra tinha mãe chorando a perda do filho pra um verme qualquer". Ela não conhece Thoreau. Ela é bem gostosa, transa como uma louca, mas não vou ficar com ela...
A vida é mesmo assim. A noite chegou e tenho que sair; mantenho os meus pontos vitais, minha energia pra respirar, tudo graças ao crime. Nem sei mais se considero crime. Sou um desobediente, vou de encontro à Lei, não a respeito.. e ela, acaso sabe quem sou? Tive a oportunidade de abordar uma fiscal desta lei maldita. Uma juíza. Vinha talvez de alguma festinha bacana, do pessoal do fórum. Sinal fechado, distração tola que só quem não tem preocupação , fome ou falta de grana possui, e ela estava li, na minha mão... aquela porca. Já tinha cumprido 3 anos no Aníbal, processo que não era meu, mas assim foi, por causa de gente como ela.
A bolsa estava na minha, e eu vi que era juiza porque tinha um adesivo no parabrisa do carro, um importadão. Juíza de Direito. O que valia aquela merda agora, porra? Ela tava a minha mercê, cagando de medo; nenhum código penal pra se basear, nenhum meirinho pra socorrê-la; só um branquelo, cor improvável de assaltante, uma 380 e ela, se eu quisesse, morta. Não ia errar daquela distância. Deixei aquela vagabunda viver... sabia que eu poderia encontrar com ela em algum tribunal destes, ela togada, eu fudido. Mas a vida é mesmo assim, e eu aproveitei a minha chance.
Tô voltando pra casa, pistola nos "quarto", um livro novo. Rousseau. Novas idéias, novos assaltos... é... a vida é assim mesmo.

Um Estranho Chamado Albert...

Albert havia sido levado por uma ambulância perto das 02:00 da manhã. Não se sabia ao certo o que tinha. É claro que vinha há alguns dias apresentando características estranhas, mais do que o normal. Ele sempre foi bastante esquisito, desde sua infância. Hoje tinha 31 anos e estava assim, doente, irreconhecível. O conheci no colegial, na Edgar Allan Poe High School, no Kansas, de onde somos. Nunca foi um garoto tranquilo. Andava sempre pelos cantos, rejeitado pelas pessoas, levando consigo aquela prova de sua doença, esta que hoje se agravou: Kafka. Nunca o largou. Em todos os lugares, era visto com aquilo, e não reprovo as pessoas por não sentirem prazer em sua companhia; livros são tão estranhos! Além deste tal polonês, outros eram vistos com ele... na escola, era medíocre nas aulas, tirando 10 em tudo. Matemática, Geografia, História (gostava muito de História) , Filosofia, Literatura, manjava tudo, e em todas era igualmente imbecil. Todos nós, o restante da turma, íamos muito bem, quase sempre o zero era unanimidade, e os professores sempre acharam o Albert muito abaixo da média. Tinha umas conversas estranhas, perguntando sempre onde havia alguma bilbioteca... "isto e coisa de malucos, cara!" eu dizia, " não vale a pena você perder sua juventude com isto! Se você continuar assim, nunca vai ser ninguém, ser normal". Ele nunca ligou para o que eu disse. Queria mesmo era se fuder.
A Universidade foi traumática. Foi aprovado com láureas nos preparatórios, uma tremenda merda. Nunca vi uma pessoa ser tão insistente em ser idiota, a ponto de ler, ler, ler e ler sem parar. Ficávamos no mesmo quarto, e as garotas vinham de vez em quando para se divertir com os caras da nossa ala. Albert nem era cogitado para a festa. Aquele seu jeito débil era aviltante; não dava pra ficar quieto quando ele falava de livros e dos benefícios do conhecimento. Ha ha ha ha! Ele estava pirando e nem se dava conta... quem liga para isto? Ser uma pessoa medíocre, sim, deveria ser a meta de todo cara normal, íntegro. Questionar, usar o tal "senso crítico" que o Albert tanto invocava, perder tempo adquirindo coisas que os médicos todos já dizem serem doenças prejudiciais e crônicas, sem cura, que levam ao ostracismo, ao esquecimento social, à derrota na vida, putz! A gente não estava percebendo que o Albert estava se perdendo, caminhando para o abismo desta tal "inteligência" ( que palavrinha mais nojenta e absurda!) , e todos os caras que ele lia tinham ido pelo mesmo barco furado. Mas não sei por que, eu gostava dele assim mesmo, genial. Tinha pânico só de ouvir as palavras "normalidade", passividade", "mediocridade" , " pusilanimidade". Era um barato curtir da cara dele dessa forma. Parece que eu estava sentindo que ele iria surtar, não ia mais aguentar aquela vidinha besta de curioso, de observador, de gente doida mesmo, estas que lotam os sanatórios por aí - os intelectuais, os questionadores, os cú-de-ferro, os "nerds" - estes caras têm mesmo que estar à margem, distantes das pessoas que só querem viver de forma tola, frívola. Sim, frivolidade! (Estava querendo me lembrar desta palavra... ouvi o padre me dizer que ser frívolo é estar mais perto de Deus... não entendi muito bem mas achei que soava legal... Deus me livre entender!!! Isso é coisa para o Albert, por isso ele foi levado).
E agora esta merda toda acontecendo com ele. Sempre nos encontrávamos depois do trabalho; fazíamos isso sempre, desde que saímos da universidade (eu consegui um bom emprego como catador de papéis e recicláveis... anda a me render uma boa grana... já o Albert tornou-se PhD em astronomia e chefe do departamento de Astrofísica da Universidade... Pode isso? O pior emprego que alguém poderia querer... se chamado de incompetente, de retardado o tempo todo, e não ganhar dinheiro! Que figura estranha esse Albert!). De repente, o cara começou a falar coisas malucas, doidas , dizendo que ele estava certo, que aquela vida que tinha de conhecimento e reflexão sobre o que acontecia e as leituras dos clássicos e outros livros eram a "maneira ideal de mudança da realidade, dos costumes imbecis e frívolos que as pessoas tinham" além de nos dar conselhos indecentes como " leiam mais e mais, se instruam, vocês também podem lutar contra o sistema de coisas que nos afligem, que nos acuam" . (ainda bem que ali não estavam alguns dos nossos mais ilustres mestres, os políticos e bispos... ficariam escandalizados).Alguém que estava conosco pegou o telefone e ligou para o Instituto de Psquiatria e Estudos das Pessoas Inteligentes e Conscientes do Kansas, referência nacional em casos como o de Albert, que logo que soube do caso mandou uma ambulância, com enfermeiros preparados para este tipo de ocorrência, que o detiveram ainda a falar sobre " revolução intelectual , consciência de si e do outro, que senso crítico seja a nossa salvação!" estas coisas que nós, os homens de fé e de espírito medíocre nem gostamos de ouvir, de tão asqueroso e doente que parecem soar. Viemos todos ao hospital, e aquilo parece que despertou a curiosidade de toda a cidade. Várias eram as emissoras de TV que acompanham os últimos boletins médicos, e só eu pude entrar e acompanhá-lo. Nem família o maluco do Albert tinha mais... fora expulso por suas "idéias", seus "argumentos", e eu entendo seus pais... não é fácil ter alguém assim em casa. O médico esteve aqui à pouco e disse que o caso dele é gravíssimo, sem solução. Estava realmente com aquilo que todos estávamos temendo... Inteligência sub-humana, sagacidade, sensatez, senso-crítico aguçados, percepção espantosa da realidade, além de agudeza de raciocínio e forte inclinação para influenciar outras pessoas a desenvolverem estes sintomas. Chorei quando o doutor disse que ele jamais seria um imbecil, um tolo, um... frívolo... tapado e manipulavel... Estava condenado ao ostracismo, ao esquecimento e à solidão social que só estes distúrbios mentais podem proporcionar... Nunca mais o verei, e confesso que isso foi bom... não dava mais para correr tantos riscos... Pobre Albert...

26 de setembro de 2009

Manifesto em Defesa da Guerra, do Fracasso e da Burrice

Não entendo por que as pessoas odeiam tanto as guerras, na mesma proporção que não gostam de ser comparadas com gente burra e fracassada, que não vence na vida. Isso prova que não há mais reflexão, não se percebem as coisas. A guerra. Toda mudança estrutural, econômica, jurídica, social, religiosa, mítica, literária, é oriunda de uma boa guerra. Criticam-se os costumes atuais, mas como mudaremos o mundo sem guerras? As esperanças se renovam, a vida torna-se mais dinãmica, novas tecnologias bélicas surgem , e como a morte está sempre atrelada à vida, novos medicamentos e soluções para tornar a vida dos soldados mais longa, a dos feridos menos dolorosa e da população mais afeita ao trabalho, muitas vezes árduo.
A burrice. mendigando um espaço, sempre descartada. O que seria do gênio sem a burrice? Para manterem-se, os grandes necessitam do imaginário tacanho das imensas massas ignorantes. O discurso (dos mestres, dos deuses, edir Macedo, Silas Malafaia, Caio Fábio, R.R. Soares, etc), na maioria das vezes tão obtuso e ininteligível que nem em mil anos se pode prever o que foi dito, fica mais leve, mais coerente, mais universal em terreno árido, seco, improvável de semear e dar fruto. Concepções, fórmulas, axiomas, teoremas, fluxogramas, religiões, tudo isso está intimamente atrelado à burrice. Não temos gênios, temos interlocutores burros.
O fracasso. O sucesso é o caminho mais curto para se obter felicidade, em todas as áreas. Se você é universitário, seja qual botequim for a instituição, você tem chances de ter sucesso. Se você prega bem, provavelmente vai ganhar dinheiro. Se não comete pecado e acieta a jesus, terá galardões no céu. O sucesso é o caminho. Mas o que seria do sucesso sem o fracasso? Como posso medir meu nível em algum "sucessômetro" disponível, se não olhar para o lado e ver em qual nível de fracasso o outro se encontra? O fracasso está dentro do sucesso, e vice versa. Alguns dizem "Você é um cara de sucesso, mas poderia estar bem melhor!". Nítida expressão de cobrança impertinente, que sempre acompanha os grandes feitos. Outros podem dizer " Você conseguiu, hein rapaiz! Ninguém é mais fracassado do que você!" (??) Isto é real, não é inventado. O sucesso e o fracasso, o gênio e a burrice, a guerra e as renovações do homem, tudo isso está acontecendo agora, movendo o mundo e as pessoas. Sábio era o Raul - "parem o mundo que eu quero descer..."

Um pastor, um pai, um canalha (última parte)

O automóvel era outro, do ano, e as atitudes do pastor Tobias eram outras em relação a sua companheira de muitos anos. Não mais a bulinava. Não enfiava mais aquela mão grotesca naquela genitália, agora envelhecida para ele, já tão machucada e cicatrizada, tantas vezes, por aquela mesma mão, aquele mesmo pênis, aquele mesmo homem. Para a devota Marly, era um descanso. Finalmente a velhice, que nem era assim tão aparente, estava proporcionando dias melhores para ela. Não se sentia desprezada, nem mesmo triste; sabia fechar-se em sua dor e , agora, em seu alívio, como um casulo. O velho, diferentemente, estava cada dia mais pervertido. Não ficava em casa por muito tempo. Insistia na mesma conversa dos cultos distantes, dos convites repentinos para pregar, dos discipulados nas casas, das viagens a congressos pentecostais. Não tinha o hábito de renovar as desculpas; não era burrice, era canalhice mesmo; queria que soubéssemos, tirássemos nossas conclusões, eu e a devotíssima Marly, que ainda estávamos ali, dividindo nossas vidas com um monte de lixo. Estava lendo Salinger, com seus campos de centeio; Holden Caufield. Nunca pensei que iria me identificar tanto assim com um personagem de livro. Jesus Cristo não conseguira esta façanha. Eu tinha 18 anos agora, Holden tem 16, a idade não importava, aquilo tudo era eu. Lia-o sempre. Comprei escondido do meu "Bernardo Gui "particular, e, enquanto ele tentava comer a devota Marly, mesmo feia e sem graça,testando nela um novo gel lubrificante, lançamento no mercado, eu lia ,vorazmente. Tornei-me irascível, como Holden.
Meu quarto ficava dividido apenas pela parede do quarto de casal e era fácil ouvir as conversas. Uma discussão prosseguia já a algum tempo; o pastor Tobias, nitidamente embriagado, resolvera pregar para minha mãe. "Deus revelou-me em sonho" disse, "que você, Marly, não é a mulher certa pra mim. Sua indiferença nos trabalhos de casa, sua insubmissão nas posições na cama, essa sua cara triste, como se não fosse uma vitoriosa em Cristo, esse filho que você me deu, estranho, sem amigos, sem namoradas... essa coisa dele não ter namoradas... você acoberta este menino... ele é gay, e você não quer me contar... que ele fosse ateu, porra, mas gay não! Oh, meu Deus... perdoe-me..."
Eu estava ali, ouvindo tudo, e o ódio, aquilo que havia feito meu sangue não coagular diante daquele estrume, daquele bastardo, começou a se manifestar de modo físico, me dando forças; o coração pulsando mais rápido, as pupilas dilatando, os punhos se fechando e a dor... minha mãe... de repente, um tiro. Um grito já sem forças... ele havia errado o alvo... estava cambaleante demais devido à bebida... saí correndo e arrombei a porta; outro tiro... outro erro. A cavalaria havia chegado para Marly, não mais devota, não tinha tempo para aquilo agora; era o real, havia visto a dureza da vida, da sua vida, encravada no rosto daquele homem sujo, bestial, com aquela arma na mão... ela saiu do quarto e tentou chamar a polícia... eu pulei sobre aquele corpo enrugado e podre; era a primeira vz que tocava com vontade naquele corpo, fedido, o álcool havia tomado conta daquilo... consegui derrubá-lo, a arma caiu do outro lado... os sóbrios têm a vantagem da rigidez dos movimentos... o ódio já carcomia meu juízo, não pensei duas vezes... só restavam 3 munições... todas tinham morada certa... corri depois disto, minha mãe a gritar desesperada... saí pelas ruas, até encontrar um lugar tranquilo, longe do tumulto. Alguns dias depois fui pego. Não me arrependo de nada, disse a um jornalista local, louco por desgraças. Estou aqui na penitenciária, já condenado pelo juri, irmãos na fé e na dor do pastor Tobias, morto pelo filho, que ele chamou de gay... Não me arrependo... mãe... eu também não te condeno... vai em paz...