Numa tarde de sábado, estava eu sentado num banco de praça, aqui perto de minha casa, ocioso. Aproximou-se de mim um jovem, eu diria um menino, com seus 16 anos, trazendo consigo um livrinho familiar a qualquer ocioso das praças por aí: A bíblia. Logo imaginei duas coisas: 1 - teria que exercitar mais uma vez minhas noções de educação e , 2 - minha falta do que fazer havia acabado. Não chego a fazer o que a maioria das pessoas costuma - repelir estes jovens pregadores - do contrário, sinto-me no dever de travar algum diálogo interessante (quando é possível), sempre prezando pelo bom senso e pela discrição. Claro que a coisa muitas vezes toma o rumo de um monólogo, quando eles tomam a palavra e não a concedem mais, mas eu insisto, e algumas vezes pude retirar algumas conclusões. Este caso que trago foi o mais medonho e triste que vi nos últimos tempos. Como disse, o rapaz aproximou-se e disse: "posso ler a palavra de deus para você?" É estranho que os deuses sempre precisem de porta-vozes para falar por eles, e estes possuem toda uma técnica, toda uma abordagem enfática para envolver os ouvintes. Permiti que ele desenvolvesse seu raciocínio, e imediatamente falou-me sobre o pecado. Citou alguns versículos que traziam o ser perverso que o homem havia se tornado, suas ações bestiais e, consequentemente, o fim que este pecado trazia à pobre alma contaminada por tais feitos: o inferno. Causa-me novamente estranheza que o merchandising judaico-cristão sempre traga a parte ruim da coisa. Dá-se mais vasão ao inferno, aos poços de fogo e enxofre, ao demônio flamejante com seus auxiliares não menos cruéis, ao ranger de dentes, ao afastamento de deus, á tragédia e ao medo, do que os benefícios que uma possível conversão poderia trazer. Com uma certa lógica o procedimento deveria mesmo ser este. Como a monotonia de um lugar onde as pessoas cantarão louvores por toda a eternidade, onde o sexo e os vícios não são tolerados, nenhuma baderna, nenhum tipo de contravenção, pode atrair qualquer ser racional, principalmente jovem? Mas como não queria interrompê-lo naquele momento, deixei estas considerações de lado. Quando finalmente foi-me dada a oportunidade de algumas réplicas, fiz com ele uma transferência de situação para formular uma pergunta. Pedi que ele visualizasse a si mesmo tendo uma visão, uma revelação divina, sendo arrebatado, ou algo do gênero. Neste momento, o texto a ser dito pelo mensageiro de deus é o mesmo daqueles relatados pela bíblia, afirmando que ele era um bom servo, sem qualquer mácula, o ser ideal para fazer a vontade dos céus sem questionar seus valores, sua aplicabilidade ou mesmo sua decência. Então esta voz tremenda ordenava que ele deveria ir até a praça mais próxima e matar o primeiro ser humano que encontrasse ( como disse, os motivos não precisam ser ditos, primeiro pela cega convicção de que deus sabe o que é melhor para sua criação, e segundo que não seria muito divino explicar à criatura os propósitos do criador). De maneira crédula e fielmente convicta, aquele garoto, agora tomado pelo orgulho de fazer parte da grande corporação dos santos obedientes e igualmente imbecis do reino dos céus, parte em busca do cumprimento do dever celeste. Adentrando na praça mais próxima, como havia predito o Senhor, ele encontrasse a mim, uma pessoa que ele jamais havia visto ou cumprimentado na rua, que não conhecia o nome, a origem, a estória de vida, a família, os filhos, os planos, os projetos, as realizações; não sabia nem mesmo o que estava fazendo ali, naquela hora. Nada disso havia sido revelado junto com a missão, talvez por pura crueldade ou mesmo por esquecimento, mas não importa, o que havia de ser feito, deveria ser feito. E ali, diante do alvo escolhido, num segundo de lucidez, eu quis que ele me respondesse: " Você me mataria e cumpriria o propósito de deus na sua vida, sabendo que o efeito de tal ação o levaria à cadeia por um longo espaço de tempo, e consequentemente traria a desgraça à sua própria família, amigos, etc?"; ele nem pestanejou ao responder: " Sim, eu mataria você, porque o Senhor assim quis!" Uma reação instintiva a qualquer humanista seria o espanto, uma reprovação e, automaticamente, a ojeriza e o desprezo ao autor da resposta, mas comigo veio algo a mais. Pesar. Como pode existir, tão próximo a mim, alguém tão jovem com uma mentalidade tão descabida e tola, própria dos homens mais obtusos? Como aquela vida ainda no início estava sendo disposta por alguns "anciãos" e "líderes" a entender um livro paradoxo e cheio de absurdos como algo verdadeiro e "santo"? Por que não existe uma contrapartida ideológica, moral, capaz de trazer a estas mentes um outro lado, menos violento e degradante, que possa impregnar o ambiente de racionalidade básica para se viver melhor? Ter pesar de algúem é muitas vezes ver um estado irreversível e nada poder fazer para modificá-lo, assim me senti naquela hora, e assim me sinto ainda hoje, quando lembro desta triste ocasião. A ortodoxia, em qualquer âmbito, é tão perniciosa quanto um vírus mortal, e mais fácil de ser inoculada nos organismos menos resistentes. Pretendo ser um imunizador contumaz.
5 de julho de 2009
4 de julho de 2009
Criando Oportunidades...
Um blog que trate de assuntos escancarados e ácidos é sempre visto com suspeitas e com certo asco pelas pessoas. Afinal, feridas são boas quando em seu estágio intermediário, revestidas por uma crosta protetora a qual esconde a carne viva, fragilizada. Retirada esta capa, todo tipo de "impurezas" nocivas podem comprometer e infeccionar estas erupções. Quando abertas, exalam o mal cheiro da hipocrisia, da farsa, expõem a verdade sobre seu estado, e isto ninguém quer. Creio que talvez seja este o problema. Não admitimos nos expor, mostrar as chagas, ao invés disto remediamos com curativos superficiais, que nos impedem à cura definitiva. Sempre deixamos o depois nos envolver significativamente, mascarando nossa vida por completo, isto em todas as esferas. Por que procedemos desta forma? Por que insistimos em deixar para depois assuntos que urgem, que necessitam de esclarecimento definitivo? Nós criamos oportunidades, desde que descemos das árvores, para que a existência humana possuísse algo a mais, maiores chances, maiores perspectivas; este esforço também provocou o aparecimento de diversas mazelas, feridas purulentas passadas quase como ancestralmente, e que hoje sujam o currículo de realizações magníficas que concretizamos. Pretendo neste blog apresentar algumas destas oportunidades, como nós pudemos chegar até aqui , e também algumas feridas encobertas, de modo cru e áspero, como um fármaco cicratizante, capaz de pelo menos trazer a discussão os pontos que nos entravam, que nos denigrem, e suscitar soluções. Que este espaço torne-se um ponto de apoio para humanistas e agentes que esperam um mundo pelo menos mais ciente de suas máscaras e conflitos.