10 de abril de 2010

Jesus Vem com as Nuvens...

(Ouçam "Helter Skelter" dos Beatles, no volume máximo, durante a leitura...)

O cheiro do leite fresco era inconfundível. Nessa região é sempre assim... uns são melhores nas carnes de porco, outros têm melhor desempenho nas plantações de milho e cevada; ali, em Nowhere Farm, o leite, o cheiro do puro leite fresco, era inconfundível. Um dia naquela propriedade não era comum; aquele mesmo cheiro de leite fresco, inconfundível, deveria estar lá, inalterado, como sempre acontecia com o próprio ciclo dos dias, desde a Criaçã
o. Cada um tomava conta de cada pedaço daquele lugar, Nowhere Farm, e o leite, aquele cheiro inconfundível, era responsabilidade de uma garotinha, Sally.
Havia a hora certa para a ordenha das vacas, e isso se dava sempre às 04:32 da manhã. Nenhum minuto a mais ou a menos. "Deus ficaria bravo se me atrasasse", diz Sally, "e pode ser que o cheiro do leite não fique inconfundível, como o costume". Boa garota. Seu pai havia dito na igreja local que ela seria uma ótima professora. Não gostava muito de vacas, muito menos do leite que vinha delas; quando jovem, comia as pobrezinhas á noite, quando o tédio lhe cobrava movimento... não, aquelas de hoje eram outras. A mãe de Sally era bastante devota. Vinha de uma família de pastores luteranos alemães; dizem até que um dos seus antepassados negou o evangelho e tornou-se filósofo, o Anticristo. Ela não recordava dele, nem queria isso, pedia a Deus. "Pare de falar esse nome aqui em casa, mulher!" dizia seu marido. Ele achava que Deus o tinha sacaneado, excluindo-o da alegria de partilhar daquele leite, do cheiro do leite inconfundível de Nowhere Farm; era alérgico o bastante à lactose para cair duro, só em ver a brancura do líquido saído das tetinhas mimosas.
Um outro orgulho, além do leite, com cheiro inconfundível, Nowhere Farm, e Sally, aquela garotinha, que seria professora, e das boas, era a fé que tinham; diferente. A igreja local produzia bons fiéis; alguns saíam, outros voltavam e se confessavam, tudo lá era bem comum. Toda a manhã Sally ia a casa paroquial, levando a sua oferta, o holocausto que o padre tanto adorava. Ele era velho e não possuía um dente sequer naquela boca enorme, nua, sem utilidade. A garotinha era bem obediente, e quando deitava na mesa, também nua, com as tetinhas brotando, o leite, cheiro inconfundível, aquele que seu pai odiava, era derramado em extrema luxúria em seu corpinho franzino, e aquela boca desdentada do velho reverendo a lambia toda, em toda as partes, tudo o que o leite pôde alcançar, trazendo saciedade física e espiritual para o padre, e um certo incômodo para Sally. Ela nunca reclamou, talvez gostasse de ser acariciada por aquela boca sexagenária, talvez a vida não fosse tão ruim, talvez essa era a forma de agradecer dos homens que falam latim... enfim... ela nunca reclamou.
A missa era sempre após o "café da manhã com garotinha" do padre, e ela estava sempre presente, ouvindo atentamente tudo o que saía daquela cavidade que a havia lambido à pouco. Pouca gente ia. Todo dia aquilo se repetia, sem descanso, e o que era dito era o mesmo discurso... último livro do livro preto.. Revelação de João...

"Eis que vem com as Nuvens e todo o olho o verá"

A garotinha vidrava quando o padre falava aquilo. Tinha um sorriso febril aquele homem. Depois daquilo, ela nunca ficava mais nenhum minuto ali, achava bem chato ouvir o sermão todo.
Sempre que voltava, ia para o colo de sua mãe, e prestava a conta das entregas de leite, aquilo que você já sabe (N.F), ouvia a velha falar sobre o sermão anterior na igreja... nunca tinha ido lá, era pagã.
Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá...
- Sabe o que é isso, Sally?
- Não, mamãe... o que é?
- O tal Jesus não é gente...
- Quem é Jesus?
- Ele vem da Terra, enriquecido pelos homens... minério canceroso...
- Não mamãe... "Eis que vem com as nuvens"...
A mãe de Sally era assim...
Sempre depois disso, a garotinha procurava o pai nas pocilgas. Ela sempre perdia algum tempo, pois o homem não era visto de imediato... misturava-se com os porcos, como um deles. Sally ria, mas logo se continha, porque seu pai sabia o que estava pensando toda vez que mostrava os dentes.
- Papai, Jesus vem com as nuvens?
- Passa a ração pra cá, garota!
- Papai, Jesus vem com as nuvens?
- Coloque mostarda, por favor...
- Papai, Jesus vem com as nuvens?
- Sim, vou cuidar de voce quando sua mãe for embora com aquele padre...
A hora do almoço sempre chegava naquela instante. Era feliz o encontro. Os três. Ensopado de porco e leite. A Tv era divertida, as emissoras transmitiam sempre aquele Cogumelo, grande, sempre branco com detalhes vermelhos. Gente miúda, no cantinho da tela, aplaudia quase sempre... pareciam mesmo felizes. O Cogumelo.
No campo escureceu logo, mesmo ali no Alabama, e o resto do dia era passado assim. Sally brincava com as tetas das vacas sempre que seu pai não estava vendo, ocupado com a pocilga e com o cio das porcas mais novas. A mãe, sempre, sempre, escutava à tarde a rádio da cidade mais próxima dali, um programa apresentado pelo Pastor Huss e suas canções de Elvis. Sally aprendeu a cantar " Heartbreak Hotel" numa destas tardinhas. Um ciclo se passou, e num dia nublado, um sol tímido e chato, mas nublado, os sinos da igreja tocaram muito, sem parar. Sally ainda estava no celeiro, não podia sair agora, o leite, cheiro inconfundível; precisava não ouvir. Chegou a pedir a Jesus para não ouvir nenhum sino idiota a chamar. Os sinos continuavam. Sally não foi. Sua mãe gritava como uma histérica; um pouco de leite estava fervendo.
O porco ainda se barbeava no banho, sua roupa estava passada e limpa. Os sinos tocaram toda a manhã, e pouca gente ia à igreja local atender aquela gritaria metálica. Sally estava agora indo para lá, levando o leite, Nowhere Farm, o padre na porta da sacristia a esperar o banquete infantil... a garota deitou, o leite caiu, a boca lambeu, tudo como de costume... hoje ela pediu a benção... não houve benção... Os sinos continuavam a tocar. No sermão, a repetição, aquilo mesmo do outro dia, do outro mês, do outro ano,

"Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá..."

Uma Tv estava colocada no altar. A cruz já há muito não aparecia por ali, acabou ficando no chão com o resto dos santos. A tela, bem grande, mostrava o Cogumelo, branco, com detalhes vermelhos movendo-se para o alto, gente miúda aplaudia, e Sally riu. O padre continuava a recitar o versículo, localizado no último livro do livro preto... sim, ele vem com as nuvens. Ele então chamou a todos para fora. estava chovendo um pouco, mas ninguém se importou. A mãe pagã, o pai, como que interrompido, com uma pequena porca sangrando pela genitália, dois velhos dementes, o padre, Sally, a cidade, todos viram, vir com as nuvens, um corpo metálico, branco, três letras encravadas em preto... alguém conseguiu ler... USA... comprido corpo, com sua cauda em chamas, vindo ao encontro de todos. Estava a uma certa altura ainda, mas todos viam nitidamente. Vinha rápido e parecia ansiar por tocar o chão ; o céu abriu num clarão enorme, e todos aplaudiram a luz que havia chegado. A porca deitou-se aos pés do seu amante, e este a chuotu com violência... a mãe da menininha era só sorrisos, abraçada ao padre; toda a comunidade vibrou, enquanto aquilo vinha com seu calor, impoluto. Jesus era grande, branco, metálico, com três letras encravadas em seu corpo, suas chagas sagradas, sua marca inconfundível. Sally não conseguiu mais olhar... Jesus está entre nós! Chocou-se ao chão aquele objeto santo, e seu calor fraternal derreteu tudo, sua onda de energia desvatava em absoluto tudo o que era vivo, morto e inanimado... o Cogumelo era Jesus. Tudo se foi. O leite, o cheiro inconfundível, Sally, a porca-amante, o pai, a mãe, o padre, o mundo... tudo agora era pó... Nowhere Farm.



30 de março de 2010

Dedicatória

Ao primeiro infeliz
Que chorou por conta do amor
Ofereço, sorridente, um gesto obsceno
Ao último ser iluminado,
Que pulou da mais alta ponte
Em honra a uma vida que queria ter e não pode
Dedico, lacrimoso, um drink do melhor vinho
Aquele destinado aos sãos.

Ensaios do Sentir

Foi mesmo ali, naquela rua
Que um dia vi alguém me dizer até mais
Ando a deriva desde então
Porque quis
Nada pedi em troca
Apenas a calma que me falta
A arrogância que me prende
A reflexão mais aguda
Deixei tudo como estava
Todas as impressões
As vagas que o mar me fez
Qualquer banco é aquele
Que um dia ela sentou
Os bolsos já afagam minhas mãos
Eles as abrigam , em lugar do teu rosto
Rosto de pele fina, suave
Um nariz que gostava de tocar
As mãos tocaram-te
Não tocam mais
Apenas o pensamento
E este se faz mais presente, ainda
Naquela rua não passo mais.

O Observar da Águia

Observar é um momento em que o animal está se preparando para a caça
Aguardando o momento oportuno
Mas muitas vezes ele não vai... porque o que o completa, a sua vítima, não dá sinais de que Está disposta
Então ele recua...
Fica só observando...
Até que outra presa melhor se aproxima, aquela outra já era...
Vai viver por enquanto para ser tragada por algum animal inferior a águia
É mais ou menos assim...
Eu prefiro ser tragado por um animal superior
Já que vou morrer...
Seria detestável morrer em mãos de seres indignos
A partir deste momento, pretendo pôr no blog algumas poesias que venho escrevendo, no intuito de, no final do ano, publicar tudo em um pequeno livro " Poesias, Contos e Iconoclastias". Espero que apreciem os trabalhos que serão colocados, e brevemente novos contos e abordagens literárias serão publicadas.

Iniciarei com um trabalho chamado "O Poeta Maldito". Eis:

O poeta maldito

Ser dos mais agradáveis

Chinelos sujos

Camisa insalubre

Com calças por polir

Estranho e medonho

Sua companhia é querida dos póstumos

Sua distância evidencia sensatez para os tolos

Ele ri de toda a procura insana dos comuns

Pela tão sonhada felicidade

A felicidade, por si só, já é sofrimento

Quantos músculos empenhados?

Tantas veias trabalhadas?

Um maldito apenas ri de tudo isso

Já sabe que a luta é vã

Deixou-se possuir pela tragédia que persegue

Todo desgraçado Homo Sapiens que respira neste mundo

Sentiu-se leve

Leveza que traz o entendimento, a sobriedade

Sabe bem que todo desejo leva ao mal

Quando não é saciado

Maldito seja! Pequenos garotos são seu séquito

As crianças mimadas do Salvador

Vieram para o lado correto

Da peçonha inventada

Escutem a voz da juventude amaldiçoada!

Eles serão os próximos profetas

A anunciarem a próxima salvação inútil

Ah, querido poeta maldito!

Vocifera, alardeando o saque aos incautos

Tudo está perdido...

Não há escape possível...

E de uma marquise qualquer, lá estarão dois olhos

Igualmente feitos malditos

Igualmente desgarrados

Suaves e desinteressados.