30 de março de 2010

O Observar da Águia

Observar é um momento em que o animal está se preparando para a caça
Aguardando o momento oportuno
Mas muitas vezes ele não vai... porque o que o completa, a sua vítima, não dá sinais de que Está disposta
Então ele recua...
Fica só observando...
Até que outra presa melhor se aproxima, aquela outra já era...
Vai viver por enquanto para ser tragada por algum animal inferior a águia
É mais ou menos assim...
Eu prefiro ser tragado por um animal superior
Já que vou morrer...
Seria detestável morrer em mãos de seres indignos
A partir deste momento, pretendo pôr no blog algumas poesias que venho escrevendo, no intuito de, no final do ano, publicar tudo em um pequeno livro " Poesias, Contos e Iconoclastias". Espero que apreciem os trabalhos que serão colocados, e brevemente novos contos e abordagens literárias serão publicadas.

Iniciarei com um trabalho chamado "O Poeta Maldito". Eis:

O poeta maldito

Ser dos mais agradáveis

Chinelos sujos

Camisa insalubre

Com calças por polir

Estranho e medonho

Sua companhia é querida dos póstumos

Sua distância evidencia sensatez para os tolos

Ele ri de toda a procura insana dos comuns

Pela tão sonhada felicidade

A felicidade, por si só, já é sofrimento

Quantos músculos empenhados?

Tantas veias trabalhadas?

Um maldito apenas ri de tudo isso

Já sabe que a luta é vã

Deixou-se possuir pela tragédia que persegue

Todo desgraçado Homo Sapiens que respira neste mundo

Sentiu-se leve

Leveza que traz o entendimento, a sobriedade

Sabe bem que todo desejo leva ao mal

Quando não é saciado

Maldito seja! Pequenos garotos são seu séquito

As crianças mimadas do Salvador

Vieram para o lado correto

Da peçonha inventada

Escutem a voz da juventude amaldiçoada!

Eles serão os próximos profetas

A anunciarem a próxima salvação inútil

Ah, querido poeta maldito!

Vocifera, alardeando o saque aos incautos

Tudo está perdido...

Não há escape possível...

E de uma marquise qualquer, lá estarão dois olhos

Igualmente feitos malditos

Igualmente desgarrados

Suaves e desinteressados.


21 de março de 2010

Tratado sobre a Insolência - Final

O pequeno cubículo onde Victor morava era a viela mais suja que já havia visto em Paris. Notório reduto de prostitutos e ladrões, o ambiente denotava que ali ninguém era bem-vindo. Consegui o endereço naquela taverna em que estávamos, mas advertiram-me que seria complicado aproximar-me do local. A imundície era o mais impressionante de tudo; seres vivos, que se revezavam entre seres humanos, ratos, gatos e cachorros lutavam pelo resto, pela migalha apodrecida de algum alimento. Roupas penduradas em varais ao longo das janelas afirmavam que havia uma tentativa de higiene, mesmo assim o aspecto era detestável. Victor morava no último buraco, por isso tive que, antes de chegar ao destino, presenciar tais fatos, que na verdade me causaram mais ojeriza do que misericórdia. A porta estava entreaberta, e logo estava dentro da casa do homem que havia me proporcionado a primeira experiência de vida válida desde que saí do ventre de minha tola mãe.
O interior da residência não poderia ser diferente do exterior. Nada havia, apenas alguns jornais espalhados, roupas penduradas na única cadeira e um forte cheiro de bebida. Adentrando mais um pouco, vi dois corpos estendidos no chão de um pequeno quarto úmido, e, num movimento voyer, aguardei para proceder qualquer atitude. Victor estava de bruços, enlaçado a um outro corpo, masculino, mas extremamente jovem; ambos estavam dominados por um sono profundo, e resolvi aguardar no cômodo ao lado, o que parecia ser, na melhor das hipóteses, a sala de estar. Não se passou muito tempo e logo os dois estavam de pé, e Victor foi o primeiro a me ver.
- Paul... Eduard... estou surpreso...
- Victor... percebo que o atrapalhamos...
- Não, de forma alguma, Valèry estava saindo. (balbuciaram alguma coisa em meio a um abraço e o jovem retirou-se). Já tomaram o desdejum?
- Há algum tempo. O dia já está bastante avançado.
- Nunca me acostumo com os horários solares, a lua me parece ser muito mais discreta. Convido-os então para acompanhar-me a algum estábulo qualquer para que eu possa me alimentar de feno.
Fomos a um pequeno restaurante,a duas esquinas do pardieiro de Victor. O lugar era bem mais agradável do que onde estávamos; logo nos acomodamos e Victor pediu uma xícara de café e alguns polvilhos, porque isso era tudo o que conseguia comprar com as moedas que trazia consigo.
- Como disse, Paul, estou surpreso com a sua visita. Há algum tempo não nos víamos, desde aquele nosso último encontro. Em que lhe posso ser útil?
- Victor, o procurei para que me esclarecesse o que eu senti naquela noite. As substâncias que me apresentou fizeram-me um bem infinito, suave, como nunca pude absorver em qualquer lugar, em qualquer tempo.Ajuda-me a compreender tais momentos.
- Paul... o que presenciastes nada mais é do que a tua própria essência, o teu próprio mundo interior. Cada experiência é única, não há qualquer conexão entre as diversas formas de sentir o que está encravado em nós mesmos. Minha vivência não é a sua, e a do mundo inteiro não é a nossa. As substâncias são só pequenos ingredientes, não são a própria visão em si. Tudo que sentistes veio de ti, de teu âmago, e quando quiseres, podes ter as mesmas sensações novamente.
- Eu sempre vivi em busca da vida, em plenitude. Deus resolveu brincar comigo e me pôs em corpo inválido e degradante, mas, como velho e senil, esqueceu de meu cérebro, minha alma. Este pequeno órgão, naquele dia, foi inundado por vida, imagens fabulosas, tempos distantes; pude viajar aos mais remotos pedaços do universo, e sei que não posso me mover com tanta graça numa cadeira com rodas. A vida é isso? Este frenesi?
- Certamente, mas ainda te faltam os movimentos corporais, que possues, senão como foste capaz de dar tanto prazer a nossa pequena amiga? O aprimoramento dos músculos, a carne que não se move por pura preguiça, eis o teu mal. Teus nervos estão enguiçados pela forma como nasceste, mas isso não te impede do prazer, então, que viva com o que tens! Quanto a isto, podes contar com a ajuda dos amigos que sempre estarão perto de ti.
Victor estava realmente disposto a me enclinar para um entendimento fantástico. Viver, no sentido estito do termo, era simplesmente utilizar-se do que temos, daquilo do qual fomos munidos, e o resto se arranjaria plenamente. Algum auxílio poderia ser utilizado, mas nunca isto poderia substituir as percepções que temos em nós mesmos, em nosso interior. Isso se parecia muito com o discurso do padre naquela manhã, quando me dizia que a vida deveria ser constantemente experimentada. Pensei bastante naquele homem e sua batina surrada, observando-me com um olhar cálido e penetrante. Não, Victor não poderia conhecê-lo.
- Sim, conheço-o muito bem, Paul. o padre Jean Pierre sempre foi um confidente adorável. Encontrei-o pela primeira vez em um sarau nas proximidades do Sena, onde um rico comerciante havia recrutado mendigos nas praças de Paris para serem servidos em um grandioso banquete. Sabíamos, os mendigos, que aquilo era mais uma demonstração hipócrita de apreço aos pobres, mas lá chegando, esta figura singular, com sua mesma batina surrada, conversava com alguns homens ilustres, e quando chegamos, ele nos olhou com bastante simpatia. Aproximei-me, e ele, num gesto doce, afagou meus cabelos e perguntou-me onde eu vivia. Disse-lhe, e ele convidou-me para passar alguns dias em sua casa, nos arredores de Bagnolet. Disse que havia se encantado com minha aparência, mesmo suja e maltrapilha. Sua casa era discreta, e ali passamos momentos agradáveis de leitura, comida, bebida, alucinógenos e sexo. As árvores que rodeavam a propriedade davam ao ambiente um ar bucólico, e passeávamos diariamente, á tardinha, conversando sobre música, filosofia, arte, mulheres e homens. Sua vivacidade, apesar de já possuir uma idade que o desqualificaria para tais cotidianos, era fantástica. Era vívido, sagaz, extremamente irônico e inteligente. Fomos amantes, amigos e confidentes; ele ausentou-se por alguns dias em uma paróquia distante, e fiquei em seu lar, cuidando de tudo. Uma manhã, disse que não queria me ver mais, que eu estava pronto, nunca mais precisaria mendigar o pão da vida, a água sagrada, pois já sabia que viver, em sua mais completa intensidade, era a salvação do homem. Fui embora e vim para as ruas, mas renovado, sentindo todo o ensinamento daquele grande sacerdote, não de Cristo, mas do Homem, do que pode alcançar o homem, das suas possibilidades. Onde você o conheceu, Paul?
Fique atônito por um tempo. Victor, com seu relato acerca daquele velho padre, me despertou do grande sono. Aquele homem era a chave, o segredo, desde o início; minha revolta não poderia ter me feito tanto mal, e cego pela fúria não pude perceber o quanto a verdade foi jogada em minha face, de forma bem maneira. Aquele padre, disfarçado certamente de operário de Deus para sobreviver e possuir o tempo necessário ás sua incursões intelectuais e amorosas, tinha encravado em si o motivo, o grande motivo da existência. Já havia passado muito tempo desde que o vi naquela igreja, e convidei Victor para irmos até lá, numa pequena visita. Em pouco tempo, estávamos diante da porta que nos separava daquele homem.
Entramos. Pessoas ainda saíam da igreja, pois a missa havia terminado há pouco. Alguns sacristãos estavam a limpar o altar recém utilizado na matança do Agnus Dei, e Victor, muito gentil, perguntou a um dos rapazes:
- Onde podemos encontrar o padre Jean Pierre?
- Senhores, creio que não são daqui, apenas nos visitam, o que é uma honra. O padre Jean Pierre encontra-se enfermo em sua residência paroquial, atrás da igreja. Já providenciamos que a extrema unção fosse ministrada, inclusive. Se quiserem, posso acompanhá-los até o quarto, as visitas estão proibidas, mas vejo que são de longe, então posso fazer esta exceção.
Seguimos friamente para a casa, onde o corpo daquele homem jazia em uma cama simples, iluminado pela luz externa que vinha através de uma janela ampla disposta acima da cabeçeira do leito. Um quadro de Jesus Cristo o velava apenas. Parecia confortável, mas um certo ar de incômodo era visto em sua face enrugada; a porta foi aberta para que pudéssemos entrar e ele estava imóvel, apenas olhando para frente. Ficamos dispostos de forma a não incomodá-lo, e víamos sua respiração arquejada, sintoma de alguma infecção respiratória. Ficamos lá pouco tempo, e resolvemos sair e beber alguma coisa. Victor estava reflexivo, como se tivesse acabado de perder um pai; eu, um pouco frustrado, pensei na morte como uma vilã. A contribuição daquele homem foi a maior que qualquer outra pessoa poderia ter dispensado a mim, e aquela forma de se despedir de um libertador era lânguida demais, estúpida demais. Pouco tempo depois, acompanhamos o seu enterro no cemiterio local, cheio de pompas eclesiásticas, e na volta resolvi ficar um pouco mais diante lápide. Victor também acompanhou-me, e garoava um pouco. Nós dois não iríamos mais nos separar, e ali, naquela lápide onde se encontravam as informações do morto para a posteridade, lembrei-me da passagem bíblica, quando o Cristo, diante de sua mãe e João, diz: "filho, esta é tua mãe; mãe, este é teu filho".


16 de fevereiro de 2010

Tratado sobre a Insolência - Parte IV

Verdade seja dita: o velho padre parecia muito mais um velho conselheiro de uma humanidade longuínqua do que um sacerdote católico afeito à restrições do cotidiano. Um gole de uma cerveja me fez pensar naquilo que havia me falado sobre viver sem limites, opondo-se às cobranças e aos lamentos que eu impunha procurando culpados pela minha desgraçada condição. Alguns amigos de Eduard sentaram-se conosco enquanto refletia, e um deles me chamou a atenção. Um rapaz muito franzino, de cabelos à altura do pescoço, num tom misto entre o negro e o louro, mãos muito magras e um rosto bem vivo, falava entusiasmado sobre um artigo que havia publicado num pequeno jornal anarquista de tiragem medíocre na cidade. Todos riam efusivamente, certamente por mais um fracasso em colocar na mente dos famintos de Paris a palavra de um socialismo já caduco; mas aquela vivacidade, aquele olhar repleto de juventude, que é necessária a qualquer empreendimento de longo prazo como aquele, fascinou-me de imediato. Victor Lambert era o seu nome. Fomos apresentados e à primeira vista parecia que nos conhecíamos há muito; não sentiu qualquer dificuldade em entender o que minha língua trôpega dizia, e o seu assunto predileto eram as estrelas no céu e a anarquia na terra. Era impossível não se encantar com aquele ser celestial. Uma pequena garota o acompanhava, e chegou-se a nós disposta a conversar.
Fomos todos embora, todo o grupo, para um quarto logo de esquina a taverna, para passarmos a noite. tudo estava á mão naquele momento: boas garrafas de vinho, cigarrilhas, haxixe e sexo. Meu titio logo tratou de abandonar-me pelos prazeres disponíveis ali, pois uma bela jovem o atanazava como o demônio; duas moças belíssimas trataram também de sumir às nossas vistas, como relâmpagos; ficamos eu, Victor e a garota. Ele perguntou-me se havia algum dia experimentado o haxixe, disse que não, e ele delicadamente me instruiu, transportando a primeira porção do vapor alucinógeno de sua boca direto para a minha. Depois, segurou o cachimbo para que eu mesmo pudesse tragar a fumaça. A garotinha já estava entregue aos domínios daquela substância, e eu já começava a ceder; a primeira sensação guardei para ser relatada: a sensação de poder, juntamente com o aumento da frequência cardíaca. Tudo parece estar mais impregnado de sentido, ao mesmo tempo que nada se encaixa; tinha em minha frente visões paradisíacas, sempre aumentadas ao extremo por percepções nunca vistas na humanidade. Victor, enquanto isso, dizia-me a origem do haxixe, sua proveniência, e como algumas religiões do oriente entendem esta droga. Disse que na Índia, esta planta era sagrada, pois provinha do deus Shiva, que, num banquete preparado por sua esposa, Parvati, babou diante de tantas delícias postas para ele, nascendo assim a planta milagrosamente. Sensual e fascinante! Como os hindus, povo muito mais antigo do que nós, tinham uma sensibilidade sem limites! Sua influência em nosso cérebro seria a misericórdia do deus para conosco, e se isso for verdade, começo a querer mais esta dádiva. Os efeitos físicos são um tanto incômodos, mas os espirituais são absurdos... a garotinha que estava ali, quieta e sã, de repente retirou suas roupas de baixo e desabotoou a camisa que vestia, revelando dois seios magistrais. Aproximou-se de Victor e lhe pediu, em segredo, algo que confirmei em seguida; ele perguntou-me se eu gostaria de, naquele estado de graça, penetrar a nossa amiga. Consenti de imediato, e ela, observando minhas limitações na cadeira, juntamente com Victor deitou-me em um velho sofá, bastante espaçoso. Não poderia ser tão versátil nos jogos sexuais, então ela dominou todo o teatro, num movimento correto onde a fêmea possui mais poder do que o macho, contorcendo-o, absorvendo-o, liderando a grande marcha do prazer.
Suas pernas eram macias e quentes, seu sexo era igualmente sublime, senti-lo era, naquela condição de dinamismo sensorial, algo maravilhoso, digno de qualquer deus sacrílego inventado. Seus movimentos eram sensuais e deliciosos, e o nosso amigo estava diante de nós, sendo o grande espectador do momento. Depois os dois deliciaram-se diante de mim, e os risos eram infindáveis; aquela sensação era estranha para mim, pois estava sob efeito do narcótico, mas percebi que aquele estado era o real estado do homem, apenas debilitado pelas leis imorais do zelo aos patriarcas e juízes atuais. O homem sempre buscou uma forma de manter-se em conformidade com esta vida sensorial, esta percepção onde as formas, as cores, os sons, tudo deriva do mais puro claustro, da mais distante caverna do subconsciente. estávamos perdendo tudo aquilo para a regulação, para a norma, para os modernos valores claustrofóbicos e sufocantes, mas diante de uma pequena sala, com o modelo apropriado de ingestão de qualquer substância dilatadora, todo o antigo modo de sentimento surgia para nós como um grande arquétipo sagrado; os grandes homens eram os de sensibilidade apurada, visão de águia, de pulsar frenético, constantemente se desvencilhando das amarras, da própria vida consumindo todo o oxigênio da liberdade. Ah, formas antigas! Todo o mundo antigo se passou em segundos, até os dias de hoje, em minha pobre mente despreparada!
Entendi a função dos deuses, suas anatomias, seus significados; eles existem! Suas formas se identificam conosco porque, numa mente de percepção aguçada, a realidad enão se mostra opaca, em preto e branco, como a vemos cotidianamente; os sacerdotes eram pessoas do povo, como os xamãs americanos, mas com a sabedoria alquímica do misturar de ervas, do conhecimento da Natureza em prol da completude da mente; eles viam o real, estas belíssimas sensações que agora presencio, que agora recebo, e dali os deuses foram criados. Toda a Natureza clamou por ser explicada no momento em que o primeiro homem se fundiu com ela, absorvendo-a em vapor, em líquido e em outras formas. Entendo agora as grandes construções, os grandes palácios, tudo o que foi dedicado ao culto, à honra dos deuses; No Egito, os faraós, lideres incontestes de uma grande nação, eram os principais ícones das percepções adulteradas; os sátrapas, os reis mongóis, os grandes impérios sul-americanos, todos estes possuíam aquilo que nós hoje não compreendemos com nossa límpida razão cristã, que proíbe o consumo de alucinógenos. Não pude conter minha felicidade, e também compreendo o porque de tanto riso, tanta euforia; o imaginário torna-se tão plausível, tão presente, que toda atristeza mundana se evapora num instante, dando lugar ao que realmente temos em nós.
Aquilo levou toda a noite, e logo pela manhã, o sol surgiu novamente nas janelas avisando que já era a hora do sacrifício diário da normalidade. Ninguém queria tal acontecimento, eu mesmo estava ainda em processo de despedida de mim mesmo, mas tudo acabou. Contei a eduard o que eu havia sentido, e ele riu bastante, dizendo que a mocinha com quem estava era virgem ainda, e tudo foi muito hilário. Precisava entender o que houve, e sabia quem recorrer.

13 de fevereiro de 2010

Tratado sobre a Insolência - Parte III

Quando enfim a missa terminou, pedi a Eduard que me carregasse até o padre. É lógico que as pessoas continuavam a olhar, a mexericar uns com os outros sobre mim, nada que um olhar meu, contra-atacando com o mesmo desprezo e nojo, não pudesse resolver. O comum fica envergonhado quando é encarado, surpreendido com reprovação pelo alvo de suas conjecturas. Era particularmente divertido passar em revista àqueles imbecis, tão aleijados quanto eu, que ali estavam tão somente para buscar conforto, ajuda do além, pão para a alma, e nunca encontravam tais respostas,vindo sempre e mais uma vez indo embora, sem alívio. Eu, por outro lado, não queria redenção nem cuidados de um pai invisível. Estava ali para pedir explicações, uma vez que a ciência nada podia fazer por mim. Nossa tecnologia é atrasada e não benecifia quem vive em estado análogo ao meu; não representamos economicamente nada para a sociedade, nada somos senão estorvo, uma massa de gente contorcida, vil, mantida a distância e sem assistência. A ciência só favorece a quem contribui, ou a algo que seja viavel em termos lucrativos. Vi naquele padreco um meio de contestar esta ignomínia que perdura há séculos, com seus belos templos e suas belas homilias; talvez ele me ajude a responder tais ponderações.
- Senhor? Posso falar-lhe um instante?
- Sim, filho. (eu odeio estas assimilações de parentesco forçado)
- Preciso de algumas explicações... creio que o senhor é o mais indicado para me fornecer o que procuro.
- Em que posso ser útil?
- Diga-me, padre, por que deus é tão injusto?
- O que você está dizendo, filho? Deus não é injusto de forma alguma!
- Eu entendo que o senhor é um ser amargurado. Obviamente não poderia jamais falar em público o que vem ao seu coração todos os dias. Estamos no mesmo patamar, reverendo.
- O que você quer dizer com isso?
- Como sou impaciente com o cinismo! Somos iguais. Pelo menos eu tenho a coragem de inquirir um representante legal da cúria romana, dita instituída por Deus para salvaguardar o homem. Não percebe, padre? O que somos para este Deus semítico, estrangeiro? Deixamos nossos cultos pagãos, cheios de liberdade e misticismo sincero para abraçar sem mesmo cogitar nada um ser distante, carrancudo, misógeno e perverso. Tudo é vontade deste Deus. A guerra que nos assola é vontade de Deus que um rei mais forte se apodere de um menos capaz, que não rezou o bastante e que não beija as mãos dos arcebispos locais. A riqueza de algumas nações europeias é vontade de Deus, que acha que as civilizações que destruímos com nossa arrogância deveriam se subjulgar a nossas botas, nossas espadas e armas de fogo. Eu, padre, meu corpo, este mesmo que o senhor insiste em não olhar fixamente, em não analisar sem se perguntar, com aquela piedade sarcástica - "Deus, por que permitiste que este jovem sofresse com este corpo disforme, fétido?" - o que sou diante Dele? Sua vontade? Sua permissão? Nem sequer fui consultado no limbo das almas infelizes, destinadas a padecer do escárnio dos homens, se queria estas limitações, esta forma abortiva. Fiz questão de vir em minha primeira excurção à França procurar o seu Deus, padre, e ouvir o que ele tem a dizer.
- As palavras que acabei de ouvir são cruéis, meu filho, muito cruéis. Não vejo a Deus como sendo responsável pelas mazelas do mundo. Tudo acontece porque o homem quer assim, afinal, o mundo foi dado a ele no início. O homem domina tudo, cria aquilo que necessita para viver melhor, possibilidades surgem quando ele quer, e Deus é apenas um elemento passivo, não interfere em nada. Ele não é este monstro injusto e tirano, apenas não interfere. Não é culpado, inclusive, da sua condição.
- Diga-me uma coisa, padre. Se o senhor estivesse em meu lugar, o que pensaria sobre Deus?
- Não posso responder a tal pergunta. Cada indivíduo reflete diferentemente sobre sua condição. Dependeria muito do lugar de onde vim, da família a qual fui criado, uma série de fatores.
- Direi ao senhor o que penso sobre Deus. Um servo nosso, que nos serve de pretexto para fazermos o bem e abominar-mos o que somos realmente: bestas. Esforço-me para falar ao senhor estas palavras, e vejo que me entende bem. Isto é obra de Deus? Não! Isto é fruto do meu esforço, de minha vontade em comunicar-me, não se configura um milagre ou qualquer coisa que o valha. Insisto em reverter a condição que ele permitiu que acontecesse no dia do meu nascimento. Sou sobrevivente pela maldade humana de expôr deformidades, pois seria grato aos meus inúteis pais se eles me atirassem ao lago gelado que passa um pouco adiante de nossa casa, a qualquer tempo. Não revidaria nenhuma braçada de salvação, não teria como, e tudo estaria acabado. Foi permitido a mim a visão, que trai ao Criador toda vez que se depara com Rimbaud ou Dostoievski, e um cérebro que insiste, digo, insiste em pensar todo tipo de heresia, apostasia e blasfêmia. Permitiu-me o Senhor estar aqui, em sua casa, para cobrar o que me é devido saber de um sacerdote a princípio idôneo, e que até agora só me faz enrolar. Não creio, santo homem, que Ele seja alguém passivo, apenas complacente; creio ser ele cruel, tirano, insano e maldizente com o homem. Não o eliminou em Sodoma e Gomorra, Nínive ou no deserto para caçoar de nós. Este é o nosso inferno, nosso castigo eterno, nenhum outro mais.
- Você não precisa de respostas, filho, precisa viver um pouco mais. Nunca vi tamanha revolta num ser tão jovem. Creio que os velhos, estes sim, podem reclamar a Deus por não lhe prolongarem a vida, que usam dissolutamente, mas um jovem que nem sabe o que é a vida? Receio que você ainda não conhece o que esta vida, que você chama de disforme e impraticável, pode oferecer. O tempo é implacável com os que não sabem aproveitá-lo, e você perde tempo comigo querendo saber por que Deus permite cada estrela no céu, cada alvorecer, cada vida microscópica, cada dor, cada ódio. Viva, rapaz! Não amole o Homem com suas perguntinhas.
- Viver é tão facil para o senhor! Talvez realmente minha resposta não esteja aqui, devo ter me enganado. Deus parece ocupado demais com o vinho da sacristia e com visitas oportunas para um diálogo mais sereno. Vamos, Eduard, tire-me daqui.
- Viva, rapaz, viva! Nosso caminho até a morte pode ser mais longo do que se pode imaginar, e nela virá a resposta que precisamos, ou o descanso que necessitamos. Perde teu tempo apenas com o que te faz sentir esta única vida que tens, mais nada.
- Cala-te, velho! Senta-te em minha cadeira, urine em si mesmo, lance teu excremento em tuas pernas sem poder reagir e verás o que é minha única vida! Madito seja!
- Entenderás depois, jovem depois...

Saí dali com ódio ainda mais corrosivo. Eduard me levou até a beira do Sena, e ali, naquele inverno ameno, vi o curso do rio que passava, sem se incomodar comigo. Era tão suave, seu caminho tão correto, determinado pelo homem; canalizado de forma agradável, aquele rio poderia se tornar belo, tranquilo. O padre pode estar certo. Deus está em seu castelo, sem ligar para nós, por que eu deveria ligar para ele, ou perguntar-lhe alguma coisa? Santo dos Santos, travarei diálogo contigo na morte, antes, preciso viver. Eduard estava com sede, por isso decidimos ir até um local mais adiante, reduto de prostitutas, cavalheiros sodomitas e literatos fracassados, para bebermos uma cerveja alemã. Viva Deutschland!