12 de setembro de 2009

Um Outro Samsa (última parte)

Quatro dias. Este era o tempo que a porta do apartamento 725 estava fechada. O porteiro, aquele mesmo atento observador do início, talvez porque fosse um tipo de barata exemplar, não havia notado nenhuma movimentação, quer daquele rapaz, quer de pessoas relacionadas a ele. O sumiço de alguém provoca reações diferenciadas em determinados grupos; no prédio em questão, houve um alvoroço sem precedentes. Por que a ausência de um condônimo traria tanto caos e perturbação? Aquele jovem tão estranho, a começar por sua aparência, heterodoxa, disrítmica. Não cumprimentava ninguém, não ia às festas de final de ano do prédio, nunca pediu sequer uma xícara de pó de café a um vizinho. Pensou-se em chamar a polícia para abrir o lugar, mas depois alguns ponderaram; acharam que qualquer hora daquelas ele iria aparecer. Preocupação puramente irrelevante; o que se queria era mesmo saber se havia morrido, se as orgias e as bebedeiras o tinham levado para o inferno, para o raio que o partisse, para a puta que o pariu, se se veriam livres daquele sujeito tacanho, metido, que não se importava, não se comovia, não interagia com ninguém.
Lá dentro, ainda havia vida. A Tv, ainda ligada, ainda fora de estação, era a única coisa que reagia. O corpo de Samsa estava jogado numa cama imunda, como um defunto. O mundo estava rápido demais, dizia ele. Todo inseto precisa de rapidez. "A vida é muito curta", "o mundo gira, o mundo é uma bola", "o tempo urge" eram bordões já calejados nos ouvidos dele. Entendia que aquelas pessoas, que ele só conseguia ver e perceber através de suas semelhanças com insetos, estavam loucos em procurar sentido para tudo. Suas vidas estavam ali, passando, e o tempo é implacável com quem o desperdiça. Não suportava as formas, os dogmas, os tratados, processos, leis, paradigmas, instruções, vigências, isso ele não tolerava. Via nos vizinhos o nojo que é viver sempre guiado, sempre com as impressões dos outros, as roupas dos outros, as manias dos outros, e a si mesmo vazio. estava cheio, cansado, não via mais graça naquilo. Por que tudo na vida deve ser limpo, ordenado, positivo, por que as pessoas só levam em conta quem tem projetos, afazeres, planos, sociabilidade? Sair e encontrar-se com sujeira e lixo das mentes alheias? Preferiu ficar. Trancou todo o apartamento. Não se viam mais garotas, nada era levado até lá. Quis viver como gente, fazendo as coisas que quer fazer, mesmo que sejam suicidas. Se não temos vontade própria, que porra fazemos aqui? Estava disposto a deixar com que sua fisiologia se extinguisse, realizando sua vontade nele.
Alguns dias se passaram e a porta foi arrombada. os vizinhos logo chamaram a polícia e a imprensa logo chegou, como traças. Todo o prédio deslocou-se para o 725 e ao chegarem ao quarto viram Samsa morto, deitado na mesma posição, de defunto; coisa almejada, buscada . Um bilhete foi encontrado. Dizia que "se fosse para viver como inseto uma vida feliz, preferia descobrir a verdade lá fora ,como homem". Ninguém entendeu. Logo jogaram aquilo no chão e foram para casa, deixando para o serviço público o papel de recolher os cadáveres imprestáveis . Meteram-no em algum buraco próprio para indigentes, e lá sabiam que a sua companhia na morte seriam os mesmos vermes que ele não queria conviver, em vida.

8 de setembro de 2009

Um outro samsa (parte 2)

Quando ele saiu, a pouco, lá estavam eles, a espreitar. Um inseto possui suas características bem definidas, e ele sabia a de cada um dos seus vizinhos. A do 532, ficava sempre a correr pelos corredores a tratar dos assuntos alheios, quase sempre trazendo doença, medo, morte, inúmeros comentários que todos já sabiam - tinham a Tv em casa justamente para isto -. O que aquela mulher achava que era? Uma porta-voz de quem não pediu opiniões? Ele a considera uma barata, que com sua rapidez asquerosa torna o ar insalubre. Ah, o senhor do 457, viúvo e ainda necessitado dos favores femininos. Não era raro vê-lo a espiar as fechaduras em horários de banho, quando as meninas ,moças, mesmo as velhas, estavam a se lavar. Sua falta de pudor já havia sido flagrada inúmeras vezes, mas o velhote era admiravelmente reincidente em seus atos. Um rato. Não era um inseto, mas vivia bem ao lado deles. Um dia quis convidá-lo a sair daquela masturbação psicológica a qual vivia , mas depois retrocedeu. Não iria fazer este favor a tão vil criatura. A do 205 era imensamente provocante, tinha lá suas positividades, mas era tão ignóbil quanto todas aquelas pessoas. Já dormiu com ela várias vezes; dá-se ao desfrute quando desejar, e isto trazia algo bom para ele. Encontraram-se certa vez no mercado, ela com sacolas pesadas para carregar e ele com alguma coisa na mão para levar ao fogo para sua janta modesta. Naquele dia acabou comendo aquela mulher, imensamente puta, imensamente suja, imensamente vil. A cada estocada, um repúdio; a cada gemido daquela maldita, uma vontade de lhe dizer que não valia nada, que era apenas um objeto feio e fraco, disponível agora quando os seus dedos estalassem. cassificou-a como uma mosca, sempre grudada em quem lhe der prazer na cama, trazendo consigo os cheiros dos homens da rua com os quais ela se deitara anteriormente. Era tão nojenta. Transava com ela por pura vontade de submetê-la aos mais degradantes caprichos, às mais toscas experiências, e disso tudo ela gostava ainda mais daquele jovem. Não conseguia entender o porque e tamanha disponibilidade para o ridículo, o banal; era apenas sexo, o maldito sexo que move tudo e todos, sempre.
Voltou para o apartamento e logo ligou a Tv. Um costume que agora não fazia mais tanta importãncia para ele, uma vez que estava tão absorto, tão entregue a devaneios longuínquos. Aquele aparelho nem fazia diferença em estar ali. Havia contas no chão, próximas ao carpete. Foram jogadas pelo síndico idiota que sempre o importunava com detalhes ínfimos sofre os "direitos e deveres dos condôminos, principalmente a moral e os bons constumes". Imbecil. Todos sabiam da sua prática sodomista com o eletricista malhado que por ali visitava os apartamentos de vez em quando. ele cobrava muito caro, mas era sempre o escolhido para realizar os serviços elétricos. Ninguém via que naquela aparência risonha e deliberada, cheia de préstimos e mimos, escondia-se um covarde pederasta infantil, que mantinha a longa data um romance com aquele jovem empregado? Sua mulher ficaria chateada se soubesse. Já estava na janela àquela hora. O chiado provocado pela falta de uma estação definida na TV evidenciava que ali, naquele instante, reinava absoluto o desleixo, o despropósito, a falta de vontade de corrigir atos comuns, como achar alguma coisa para assistir. O apartamento era pequeno e úmido. Quis que assim fosse. Não queria nada muito ventilado ou iluminado. A energia elétrica fazia bem o seu papel artificial, não precisava do sol para nada. Sempre achou que o sol trazia a lume minúcias, e ele odiava aquilo. os livros estavam dispostos de maneira desigual, sem simetria alguma. Volumes grossos e finos, autores nacionais e estrangeiros, todos irmanados, os que diziam muito e os que diziam pouco, os baluartes e os anônimos. Dali daquela janela era possível perceber que tudo naquele espaço já havia sido conferido, sugado, vivenciado, transpassado por ele. Não via mais graça naquilo; estava ficando doente.

continua...

6 de setembro de 2009

Um outro Samsa ( parte 1 )

Havia amanhecido, e as garrafas ainda estavam ali. Mais uma noite orgiástica, mais drogas, mais sexo, mais vivência extrema. Ele parece estar moribundo, encostado num pequeno sofá sujo pelos líquidos expelidos quando não se aguenta mais as ingestões, os vapores. Mirna, Beatriz, Simone. Todas foram embora. O porteiro viu quando saíram, cambaleantes e ainda vestindo suas roupas. Ele ensaia uma recuperação, tateando o caminho que leva ao banheiro, para lavar-se. Acredita que com este ato, o contato corpo-água, poderia livrar-se da dor, limpar algum vestígio de insânia, de putrefação psicológica que estava chegando, já a martelar seu pobre juízo. Gostava daquela vida. Tinha mesmo naquela forma de interagir algo que o mantinha sadio, forte; vislumbrava nos livos da pequena estante os mortos que um dia viveram intensamente, os heróis e vilões que trouxeram forma, estética ao mundo. O prédio onde morava estava infestado por insetos enormes, grotescos. Estes tinham formas, cores, cabelos e hábitos quase sempre moralistas e corretos, como uma boa sociedade exige. Mas, como tudo o que vinha do lixo, fediam, eram pestilentos e transmitiam virulência sem parar. Tinham um manual sempre preso entre os braços, capa preta e páginas douradas. Os corredores dos andares eram estreitos, e o espaço entre os apartamentos era exíguo, logo a vida, que deveria ser particular e de forma nenhuma intrusiva, era dividida no melhor molde socialista. Ele parece odiar estas formas de sociabilidade. Estava cheio, exaurido. As pragas vinham, quase sempre, depois dos seus momentos de embriaguês e sexo, comentar os gemidos, as frases heréticas, os versos ditos, os cheiros e barulhos provenientes da luxúria e da fanfarrice que ele promovia em sua casa. Estava realmente cheio. Já tentara vender aquele cubículo a algum amigo, sem sucesso. naquele dia tinha despertado diferente, com mais sede de viver, com mais ânsia, mas ao mesmo tempo estava mais esgotado do que nunca, fisicamente afetado e psicologicamente estranho. A noite anterior tinha sido excelente. As mulheres , fêmeas insignificantes, vinham libertadas, doces, sorrisos largos e seios á mostra. Duros e suculentos. As pernas, sempre grossas, sempre lisas, sempre aromatizadas, corpos que pretendiam exercer suas funções com a maior possibilidade, enfrentando a matemática convencional das posições e métodos de amar. Ele estava ali, sempre disposto, sempre acordado; não sentia aquelas mazelas que o sol trazia consigo ao amanhecer. Tinha o cérebro inundado por química favorável, estímulos gananciosos mas facilmente repartidos. Não conseguia esquecer uma coisa: As pragas.

Continua...

29 de agosto de 2009

Canções do Agora

Literal,
Seco,
Abrangente e perspicaz...
Sou isso desde a invenção do tempo,
E quase sempre .

Abominável para com as verdades,
Ridículo para os normais,
Herege ,iconoclasta,
Sarcástico e infame,
Tornei-me indelével,

Quem não tem mais dor,
Quem não vê anjinhos,
Quem não acende velas (elas são perigosas)
Tornei-me intocável.

Não gostas? Foda-se!
Queres mais? Apressa-te!
Sou poeta das ruas imundas,
Maldito, visceral...

Não desejo a poesia
Tão límpida e cheia de engodo
Quero a tragédia nua e fedorenta
Das vielas amargosas, sofríveis

O fedor dos incompreendidos,
Este é meu olor, minha marca.

O Teatro, o Ator e a Permissividade

Ir ao teatro constitui um ato de busca. Um espaço único, concebido e desenvolvido para acolher espectadores anciosos em ver suas mentiras encenadas, suas tragédias e deslizes representados. O fingimento que nos circunda, creio, é o principal agente causador desta prática que hoje tornou-se mais diversão do que reflexão. Não falamos a verdade. Precisamos da farsa, do argumento mentiroso e arguto; a verdade é tão absurda e cruel que preferimos muito mais estas formas de convívio, sendo regulados por padrões igualmente equívocados, sínteses de uma "segurança" que só a mentira dá. Institucionalizada como padrão estético , o irreal, o improvável e o mítico são nossas maiores referências. O exagero é a marca do belo, do desejado, e tudo aquilo que pareça ser o mais próximo do real, leia-se, daquilo que é feio, triste, patético e sincero torna-se o pior de todos os pecados , sendo evitado com nojo e vitalidade. O teatro vem a ser um local de contemplação daquilo que é o maior segredo, e mesmo assim a coisa mais notória, da humanidade: a mentira como forma de verdade única. O ator traz , entranhado em si, o engano geral, o erro de viver sempre de aparências, de esconder sentimentos; aquilo que desejamos falar a quem se passa, agir com quem se vive. Usando de total liberdade para assumir estas facetas no palco, o personagem, sob as luzes reveladoras da ribalta, expõe diante dos olhos fixos de uma platéia obscura, protegida pelo negrume da sala sem luz ( esta forma de colocar o público nesta posição incógnita é um dos pontos mais fantásticos desta cumplicidade) aquilo que ele é, sem máscaras ou rodeios. Cria-se aí um ponto chave. Eu - o público - permito incondicionalmente através do ingresso que pago a manifestação daquilo que não desejo ser, ver, sentir nem vivenciar, através do ator. Tudo o que diariamente coloco fora, no lixo do insconsciente, e que me permite viver sem maiores sensações de dor é reproduzido de maneira literal pelo personagem, articulado, respirado, sentido pelo sacerdote das farsas repudiadas, porém constantes. Esta permissividade que logo sujestiona passividade, porque não podemos criticar ou mesmo interromper uma cena em seu pleno desenrolar, dói, sangra velhas feridas, disponibiliza antigas neuroses e frustrações, mas transmite beleza, suavidade ao mesmo tempo. Aí entra a Arte. Somos arrebatados por ímpetos selvagens de nossos próprios desconsertos, e mesmo assim choramos, pagamos para assistir,aplaudimos entusiasticamente e voltamos para novos espetáculos. Esta manifestação tão rica nos aprisiona. Queremos saber quem somos, e o Teatro é, sem dúvida, a porta mais elegante, lúcida e permissiva, onde podemos espiar nossas dores , com a Arte necessária para suportarmos sem sucumbir.