Piedade, Senhor!
Dizem os hipócritas, sujos ainda
Da benfazeja honra dos mortais,
Aquele pecado,infinito.
Estamos sozinhos neste quarto escuro, o mundo...
O Grande Pai está a dormir profundo sono...
Órfãos de mãe (morta pelo marido, invejoso),
Choramos sua ausência
Procurando-a na beleza inaudita,
Na sexualidade reprimida.
Então mais um gole,
Do sangue mais puro
Vendido em pardieiros,
De onde partem os malditos
Escritos e versos meus.
Ambrosia virulenta,
Que consagra os perdidos,
Tenho-a ainda...
Em fígados antigos, encharcados,
Em braços esporádicos, ainda sentidos,
Em corpos em brasa, febris pela ânsia.
Eis... ainda vive o poeta...
7 de agosto de 2009
Memórias Póstumas de Um Suicida
Hoje vou postar um poema, mas que não me pertence. Sua autora é uma jovem poetisa e atriz, Amanda Braga. Apreciem, e espero que ela me conceda outras oportunidades de publicar aqui seus trabalhos. Eis então:
"Caminhos vazios,
Vadios...
A fome que percorre o estômago,
O breu que enche o medo dos olhos,
Vasos d’água derramam sem piedade.
O sol me esquenta a face,
O sangue me percorre os dedos...
Desertos...desprezo a sanidade!
Facas de gumes duplos
Assentam minhas mãos desprovidas,
E os olhos das virgens carcomidas
Se debulham em flores...
E então pra abrasar as minhas dores
Fiz-me defunto gratuito
Pra morrer com vida..."
"Caminhos vazios,
Vadios...
A fome que percorre o estômago,
O breu que enche o medo dos olhos,
Vasos d’água derramam sem piedade.
O sol me esquenta a face,
O sangue me percorre os dedos...
Desertos...desprezo a sanidade!
Facas de gumes duplos
Assentam minhas mãos desprovidas,
E os olhos das virgens carcomidas
Se debulham em flores...
E então pra abrasar as minhas dores
Fiz-me defunto gratuito
Pra morrer com vida..."
4 de agosto de 2009
Considerações sobre o Medo
Nietzsche achava que o medo era o grande responsável por todas a moralidade humana, sua teimosia em não seguir o que a vida lhe ditava e a sua mediocridade em renegar esta mesma vida. Com o medo, o ser humano anula-se, perde sua essência primeira, pura, das vontades enquanto manifestações naturais, experimentando sensações somente perceptíveis diante do ato destemido. Quando crianças, fantasmas e bichos-papões eram os nossos maiores medos. Suas figuras nos traziam à lembrança aquilo que nos era ditado pelos mais velhos como seres abomináveis, terríveis... quando na verdade eram figuras míticas destinadas a prender nossa atenção para que não fizéssemos algo que desagradasse à nossos pais. Este sentimento, que visceralmente nos atinge, tanto psiquicamente quanto fisicamente, mostrando que está ali e que não vai nos deixar em paz, nos é útil em meios naturais, evolutivos. O medo provoca receio, ponderação, sentimentos muito interessantes quando se está na luta pela sobrevivência; mas inibe o que há de melhor em nossas ações, nos castrando, nos violando. Há algumas situações em que ponderação e receio são inúteis. O desafio a ser vencido, as sensações alquímicas da liberdade irrestrita, o amor verdadeiro, o romper dos dogmas, que sabemos serem ridículos, estes valores dependem de respostas rápidas, e o medo e sua trupe têm o péssimo gosto de serem lentos e meticulosos. O que quero dizer é: se o medo nos pondera, por que ainda somos solidários a ele em nossas relações? Surgimos em um meio medroso, onde quase tudo é erro e censura. Os ícones, os mitos, todos eles possuíam medo, porém não se intimidaram. Sabiam que aquilo era tudo o que a maioria queria, estes mesmos que hoje ainda persistem. Talvez uma reação de raiva, de inconformismo, de transgressão tenha eclodido justamente dos ovos postos pela reflexão demasiada, da cautela que não deturpa, que não denigre.Somos desafiados, instigados a transpassar os valores, os pré-requisitos, as fórmulas prontas, e mergulharmos no desconhecido que não podemos ver quando estamos perplexos. O medo é institucionalizado, tido como ferramenta fundamental de gerenciamento dos governos, dos Estados modernos; a fé impõe medo, indicando um caminho ideal, uma marcha de cordeiros obedientes e santos, justamente por renegarem sua humanidade, falsearem suas vidas e silenciarem diante dos gritos da vida, sempre pulsante. Os mansos herdarão a terra... cheia de odor covarde, vazia de som, de cor, de possibilidades.
2 de agosto de 2009
E-mails a um Jornalista Cético
"Prezado jornalista Hank,
Li sua coluna ontem. Estou enojado com sua capacidade de tornar as coisas sublimes do criador em simples conjecturas e morbidez. Na verdade, farei aqui uma acusação. Acuso-o de incitar a dúvida. Um sentimento como este não pode estar correndo livre. Aliás, deveria sim ficar longe dos fiéis. A dúvida traz consigo a tristeza, a infame sensação de que tudo é vão, ilógico e sem motivo. Tenho alguns trechos daquela idiotice que o senhor escreveu... " com o passar dos séculos, o homem, mesmo tendo experimentado as brisas suaves promovidas pela ciência, ainda insistiu em reverenciar o deus abraãmico, tirânico, invisível e improvável." Diga-me, isto é algo que possa ser dito? O que o senhor entende sobre Deus? Ele mostra-se a quem bem entender, é assim desde os tempos imemoriais. Os relatos bíblicos apontam esta sua característica; mostrava-se às pessoas que ele tinha um proposito específico. O senhor até diz que "as aparições bíblicas sempre passaram despercebidas porque a medicina ainda não havia inventado a Psiquiatria e a Psicanálise". Incutir ciência nas mentes dos mais sofríveis é algo tenebroso, fique o senhor sabendo. Eles não precisam de conhecimento que os tornarão ainda mais desolados, infelizes. Eles precisam de fé, de uma comunidade eclesiástica firme, fiel. usar meios de mídia para levar o que não se quer ler ou ouvir e ver é abjeto e inconcebível. Desprezo sua retórica contra os clérigos, e tenha a certeza de que um lugar muito ruim o aguarda.
Sem mais, um homem de Deus que pede misericórdia por você, filho."
Sem mais, um homem de Deus que pede misericórdia por você, filho."
Trechos - Schopenhauer
"Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo […], sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma."
Extraido do livro "A Arte de Escrever" - L&PM Pocket.
Extraido do livro "A Arte de Escrever" - L&PM Pocket.